Evento CRCPR em Sua Região debaterá aplicações da Inteligência Artificial na Reforma Tributária

Publicado em 23/06/2026 15:00 · por Helena Michelli Ferreira Romanin - Comunicação, Karin Oliveira - Comunicação · 131 visualizações

Umuarama receberá o encontro, no dia 16/7, e palestra será ministrada pelo especialista em IA, Carlos Chelfo

RESUMO: O CRCPR em Sua Região levará a Umuarama debates sobre inteligência artificial, Reforma Tributária, ESG e soft skills, reunindo especialistas e profissionais da contabilidade para uma jornada de atualização técnica. Entre os destaques da programação, está a palestra de Carlos Chelfo, que abordará o uso da inteligência artificial na automação de processos tributários. A iniciativa fortalece a educação continuada e contribui para a preparação da classe contábil diante das transformações do mercado e da legislação.

Em 16 de julho, o evento CRCPR em Sua Região chegará a Umuarama, com apoio do Sindicato dos Contabilistas de Umuarama (Sincouma). A programação abordará assuntos como ESG, Reforma Tributária e Soft Skills, reunindo profissionais e especialistas do cenário contábil, e sendo realizada presencialmente, das 9h às 16h30, no auditório do Sincouma. O encontro trará como um dos palestrantes, Carlos Chelfo, especialista em Inteligência Artificial (IA).

Durante o encontro, Carlos Chelfo ministrará a palestra "IA na Reforma Tributária: Crie seu Assistente de Automação". O profissional é mestre em Ciências Contábeis e especialista nas áreas de Perícia Judicial, Gestão Pública, Compliance e Lei Geral da Proteção de Dados (LGPD). Além disso, possui Master Business Administration (MBA) em Inteligência Artificial, e cursos em investigação de crimes digitais pela Organização Internacional de Polícia Criminal (interpol), criptoativos pela Organização das Nações Unidas (ONU) e IA por Harvard. Atualmente, Chelfo é coordenador da Proteção ao Direito Autoral na Agência Nacional do Cinema (ANCINE) e de Incentivos Fiscais Culturais no Conselho Regional de Contabilidade do Rio de Janeiro (CRCRJ).

Nesta entrevista ao CRCPR Online, o palestrante aborda as transformações que a IA e a Reforma Tributária estão promovendo na contabilidade. Chelfo explica sobre a substituição de tarefas operacionais pela automação, a necessidade de capacitação contínua e o uso responsável da IA como ferramenta de trabalho. O contador enfatiza ainda a relevância de iniciativas como o “CRCPR em Sua Região”, que levam atualização profissional ao interior do Paraná, contribuindo para que os contadores acompanhem as mudanças da profissão e se mantenham preparados para os desafios do mercado.

Confira a seguir, entrevista com Carlos Chelfo

"O profissional estratégico será aquele que deixa de ser executor de tarefa e passa a ser arquiteto da execução, gestor de risco tributário e tradutor do dado em decisão de negócio para o empresário", afirmou Carlos Chelfo acerca do uso da IA

"O profissional estratégico será aquele que deixa de ser executor de tarefa e passa a ser arquiteto da execução, gestor de risco tributário e tradutor do dado em decisão de negócio para o empresário", afirmou Carlos Chelfo acerca do uso da IA

CRCPR Online: Considerando sua trajetória em áreas como contabilidade, gestão pública e tecnologia, como enxerga o papel estratégico do profissional contábil diante da incorporação de ferramentas de inteligência artificial aos processos fiscais e tributários?

Carlos Chelfo (CC): Vejo com clareza uma mudança de natureza da prática contábil, não apenas de ferramentas de apoio. A IA não está chegando para acelerar o que o contador já fazia; a IA está redefinindo o que significa ser contador hoje e no futuro (bem próximo). Por muito tempo a profissão se sustentou sobre a escrituração, a apuração e o cumprimento de obrigações acessórias. Esse era o trabalho, e era valorizado porque era escasso. Hoje, essa atividade operacional é justamente o que a “máquina” faz melhor, mais rápido e sem descanso. A Receita Federal do Brasil (RFB) entendeu isso antes de muitos profissionais da contabilidade: a Portaria RFB nº 647/2026 instituiu formalmente a Política de Inteligência Artificial do órgão, e o fisco já cruza, quase em tempo real, dados de bancos, cartórios, Pix, operadoras de cartão e fintechs. O Imposto de Renda (IR) de 2026 virou uma plataforma interativa que aponta a inconsistência enquanto você ainda está digitando. Ou seja, do lado do Estado, a IA já é realidade consolidada. O papel do contador, então, migra do operacional para o analítico. A máquina (IA) classifica, concilia e calcula; já o contador interpreta, julga, assume risco técnico e responde por ele. Repare num detalhe que considero decisivo: a própria RFB preservou o humano no circuito. O algoritmo aponta a inconsistência, mas a decisão sobre multa, malha ou exclusão de regime continua sendo do auditor-fiscal da RFB. Esse princípio vale para o nosso “lado da mesa” também. A IA generativa, segundo o Thomson Reuters Institute, quase triplicou de adoção entre escritórios tributários no último ano, saltando de 8% para 21%, e 71% dos profissionais da área já acreditam que ela deve fazer parte do trabalho diário, contra 52% no ano anterior. O ponto de reflexão é: não é se vamos usar, é se vamos usar com competência técnica e responsabilidade ética. A IA não substitui o contador, ela substitui o contador que não usa IA. Dessa forma, o profissional estratégico será aquele que deixa de ser executor de tarefa e passa a ser arquiteto da execução, gestor de risco tributário e tradutor do dado em decisão de negócio para o empresário. Esse profissional não tem o emprego ameaçado pela tecnologia; ele tem o valor multiplicado com uso da IA.

CRCPR Online: Quais setores tendem a ser mais impactados pela automação tributária e como os profissionais da contabilidade podem começar a se preparar para esse novo ambiente?

CC: Precisamos separar dois fenômenos que costumam ser tratados como um só: a automação dos processos fiscais e a Reforma Tributária. Eles convergem agora, em 2026, e é essa convergência que torna o momento tão delicado. E falo com a propriedade de quem “vive a máquina pública por dentro”, pois essa vanguarda começou bem antes. Em 2005, a então Secretaria da RFB realizou o primeiro concurso para auditor-fiscal com área de especialização em Tecnologia da Informação, o marco inicial dessa trajetória. Vinte anos depois, a Portaria RFB nº 647/2026, sobre IA, apenas formaliza o que o fisco federal já vinha construindo silenciosamente, um corpo técnico desenhado para a era dos dados, enquanto parte da classe contábil ainda debatia se a tecnologia era um hype. Pela ótica da Reforma Tributária, o setor mais impactado é, sem dúvida, o de serviços. É uma questão estrutural: serviços têm folha de pagamento alta e poucos insumos que geram crédito; e pagamentos de salários não geram créditos de IBS nem de CBS. Um prestador que hoje recolhe ISS na faixa de 2% a 5% passa a conviver com um IVA Dual cuja alíquota de referência o Ministério da Fazenda estima entre 26,5% e 28,5%. Lembrando que a Lei Complementar nº 214/2025 fixa em 26,5% a trava legal de referência, ultrapassado esse patamar, o Executivo fica obrigado a propor medidas de redução. Isto faria Brasil ter o segundo maior IVA do mundo, atrás apenas da Hungria. A Lei traz reduções relevantes que precisam ser bem compreendida. Nós, contadores, estamos expressamente no rol das profissões regulamentadas com redução de 30,8%, ao lado de advogados e engenheiros. Atenção, não se trata de uma alíquota de 30%, e sim de um desconto de 30% sobre a alíquota de referência. Se a alíquota padrão for 27%, a carga efetiva fica perto de 18,9%. A redução de 30% não é automática para qualquer escritório, pois a LC 214/2025 em seu art. 127§1º, exige para pessoa jurídica requisitos cumulativos, entre eles que os sócios possuam habilitações profissionais diretamente relacionadas aos objetivos da sociedade, estejam submetidos à fiscalização de conselho profissional e que os serviços da atividade-fim sejam prestados diretamente pelos sócios, admitido o concurso de auxiliares ou colaboradores. Pela ótica da automação, o recorte é outro: o que está mais ameaçado não é um setor, é uma função. As tarefas vulneráveis são a escrituração, a digitação, a conciliação manual e o preenchimento repetitivo de obrigações fiscais. O operacional declina, o estratégico ganha valor. O Fórum Econômico Mundial chegou a listar alguns serviços de contabilidade entre as ocupações em maior declínio global. Essa projeção subestima o aumento brutal de complexidade e de obrigações de compliance que a própria Reforma Tributária cria. Estamos no ano-teste de 2026, com alíquota simbólica de 1%, sendo 0,9% de CBS e 0,1% de IBS, sem recolhimento efetivo, mas já com a obrigação de destacar os novos tributos, os códigos CST e o ClassTrib em cada documento fiscal eletrônico. Errar essa classificação gera rejeição de nota, inconsistência na apuração e risco de multa de ofício de 75%, elevada a 100% em casos de sonegação, fraude ou conluio e que pode chegar a 150% na reincidência, nos termos da Lei nº 14.689/2023 e da tese fixada pelo STF no Tema 863. O dado que mais me preocupa é o do despreparo. Pesquisa da Robert Half apontou que apenas 11% das empresas se diziam totalmente prontas para a Reforma, com companhias de médio e grande porte mostrou 72% ainda despreparadas. Há um abismo entre a urgência e a prontidão, e esse abismo é exatamente onde o contador estratégico se posiciona com uso da IA. Sobre como se preparar: primeiro, dominar a Reforma Tributária de verdade, não em palestra de slide, mas na parametrização do ERP, na classificação correta de CST e cClassTrib, na gestão dos créditos da transição que vai de 2026 a 2033. Segundo, adotar IA como assistente técnico, não como curiosidade. A pesquisa Future of Professionals 2025, da Thomson Reuters, com 2.275 profissionais em mais de 50 países, aponta estimativa de economia média de cinco horas semanais por profissional com IA, perto de 240 horas por ano; tempo que deve ser redirecionado para consultoria e análises estratégicas. Terceiro, e talvez o mais importante, reposicionar o serviço, saindo da contabilidade que apenas envia a guia para a contabilidade consultiva, pericial e de governança de dados. Assim, o fator diferencial não virá de fazer o básico mais barato, mas sim de fazer o estratégico personalizado e com a empatia contábil junto ao seu cliente.

CRCPR Online: Qual a importância de iniciativas como o “CRCPR em Sua Região”, em cidades como Umuarama, para promover a atualização dos profissionais?

CC: De nada adianta diagnosticar que a profissão precisa se reinventar se a capacitação ficar restrita nas capitais e nos grandes centros. O mercado contábil brasileiro é geograficamente concentrado e é no interior que a atualização chega com mais atraso e custa mais caro. Levar conhecimento qualificado e gratuito até cidades como Umuarama não é cortesia institucional; é política de equidade profissional. O programa do CRCPR tem um histórico que merece registro: já percorreu mais de 40 cidades do Paraná e cerca de 15 mil quilômetros, e segue ativo agora em 2026. Umuarama tem peso próprio nesse mapa. É um polo consolidado do noroeste paranaense, com representação regional do Conselho, curso de Ciências Contábeis na UNIPAR, Núcleo de Apoio Contábil e Fiscal e um sindicato atuante (SINCOUMA). Trazer um encontro presencial de atualização para esse ecossistema irriga toda uma região com conteúdo que, de outra forma, o profissional da contabilidade teria que buscar a centenas de quilômetros de distância. Há também uma dimensão regulatória que não pode ser ignorada. Eventos como este pontuam no Programa de Educação Profissional Continuada do Conselho Federal de Contabilidade (PEPC-CFC) e, ao mesmo tempo, entregam o encontro presencial, a troca entre pares e a pergunta feita olhando no olho do palestrante. Num momento em que discutimos IA, há uma ironia salutar nisso, a tecnologia avança justamente porque a inteligência humana se reúne, debate e se atualiza coletivamente. Por fim, vejo esses encontros presenciais como o lugar certo para enfrentar os desafios que rondama categoria. O profissional do interior lê manchetes sobre o fim do contador e fica apreensivo. Quando ele se senta num evento como o de Umuarama e entende que a IA é ferramenta a serviço do seu julgamento, que a Reforma Tributária multiplica a demanda por quem sabe interpretá-la, e que o futuro pertence ao contador consultivo e não ao operacional, ele sai de lá com direção certa a seguir. Essa, para mim, é a maior importância dessas iniciativas: transformar dúvida em conhecimento estratégico, e isolamento geográfico em pertencimento a uma classe contábil que está, fortemente, no centro das decisões econômicas do país.

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