"Deixa de ser uma questão passageira de idealismo ou ativismo e passa a se consolidar como obrigatória", diz especialista acerca da importância da Semana do Meio Ambiente

Publicado em 01/06/2026 15:00 · por Helena Michelli Ferreira Romanin

Em entrevista, palestrante do CRCPR em sua Região, Fernanda Féder Paraná, aborda os impactos das mudanças climáticas e o papel estratégico da contabilidade

Celebrada anualmente entre os dias 1° e 5 de junho, a Semana do Meio Ambiente reforça a importância da conscientização ambiental e da adoção de práticas sustentáveis em diferentes setores da sociedade. A data propõe a inclusão da sociedade na discussão de pautas que tratem da preservação do patrimônio natural.

Diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, pela escassez de recursos naturais e pelo aumento das demandas por responsabilidade socioambiental, a adoção de práticas sustentáveis tornou-se indispensável para organizações, governos e cidadãos. Criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1972, a Semana do Meio Ambiente busca estimular debates, promover a educação ambiental e incentivar ações concretas voltadas à preservação da biodiversidade e ao desenvolvimento sustentável. Além disso, o período evidencia a importância da implementação de estratégias alinhadas aos princípios ESG (Environmental, Social and Governance), fortalecendo a relação entre crescimento econômico, responsabilidade social e preservação ambiental.

Alusivo à data, o Conselho Regional de Contabilidade do Paraná (CRCPR) promove uma campanha digital em redes sociais, que incentiva a conscientização, informação e debate ao tema. E, para entender melhor a importância da sustentabilidade e de que forma o profissional da contabilidade pode fazer a diferença diante do cenário ambiental atual, a bióloga Fernanda Féder Paraná abordou, em entrevista, temáticas importantes que conectam sustentabilidade, gestão estratégica e responsabilidade corporativa.

Fernanda é pós-graduada em Estratégia e Sustentabilidade Empresarial, professora universitária e possui experiência em ESG, gestão do ciclo de vida de produtos, sustentabilidade corporativa e definição de metas estratégicas de longo prazo. Além disso, Féder ministrará a palestra “Da Conformidade à Estratégia: A Contabilidade na Agenda ESG”, no evento CRCPR em sua Região, que acontecerá no dia 16 de julho, em Umuarama.

Confira a seguir a entrevista com Fernanda Féder Paraná acerca de ESG e meio ambiente:

CRCPR Online: O debate ambiental frequentemente é tratado de forma polarizada entre preservação e desenvolvimento econômico. Nesse cenário, qual é a importância dos indicadores ESG e da transparência contábil para ajudar empresas a identificar riscos ambientais, avaliar impactos econômicos e tomar decisões mais sustentáveis no longo prazo?

Fernanda Féder Paraná (FFP): Todo e qualquer tipo de atividade econômica gera impactos ambientais. Mapear estes impactos e definir ações para reduzi-los, mitigá-los e, se possível, gerar impactos positivos, é responsabilidade de empresas. As organizações têm o dever moral, social e, como já previsto em muitos casos, a obrigação legal de reduzir ao máximo os danos que geram à sociedade e ao meio ambiente. Quando olhamos para este debate pelo viés da responsabilidade, a implantação de uma estratégia de sustentabilidade vai além de propor compromissos em longo prazo para reduzir os danos, ela também resulta na geração de valor para o negócio: melhora a reputação, qualifica as relações com os públicos diversos, gera fidelização, reduz os riscos, promove eficiência e inovação, entre outras oportunidades. Quando os profissionais da área contábil passam a reportar os indicadores ambientais (e os sociais e de governança) por meio de normas como a IFRS (International Financial Reporting Standards) S1 e S2 para seus clientes, é possível gerar uma cadeia de ações positivas como maior transparência e qualidade, com informações mais robustas nos relatos, a empresa presta compartilha sobre sua atuação na sociedade de forma muito mais abrangente e qualificada; já no engajamento do mercado, os clientes passam a acompanhar essas boas práticas, exigindo que outras empresas também atuem em prol da sustentabilidade; na pressão competitiva, a concorrência começa a incorporar os indicadores ESG (junto a outros critérios, como qualidade e preço), demonstrando que resultados econômicos podem estar atrelados aos de sustentabilidade; por fim, na melhoria contínua, o movimento de mercado impulsiona a própria empresa (a que iniciou essa cadeia com um reporte mais transparente) a buscar, continuamente, um desempenho social e ambiental ainda melhor. Mas, para que os dados dos relatórios sejam o retrato de resultados reais e efetivos, os aspectos ambientais e sociais precisam estar aliados aos econômicos nos processos estratégicos e de tomada de decisão, incorporados na atuação das empresas com o objetivo de trazer benefícios para as pessoas e o meio ambiente, sem perder de vista a geração de valor para o negócio.

CRCPR Online: Em um momento de discussão acerca da flexibilização da legislação ambiental, inclusive com impacto sobre áreas protegidas e competências do Ministério do Meio Ambiente, como a contabilidade pode contribuir para que empresas do agronegócio conciliem crescimento econômico e preservação dos recursos naturais necessários para o futuro do setor?

FFP: Todo e qualquer tipo de atividade agrícola ou pecuária depende diretamente da integridade dos recursos naturais: da qualidade do solo, da disponibilidade e qualidade da água, do microclima estável, dos processos de polinização, entre outros, que chamamos também de serviços ecossistêmicos. Diante de cenários de flexibilização da legislação ambiental, os negócios do setor têm o dever estratégico e econômico de enxergar além da obrigação legal imediata, compreendendo que a degradação dos recursos naturais compromete a própria viabilidade de suas operações no presente e no futuro. Quando olhamos para este debate pelo viés da sustentabilidade, a contabilidade assume o papel indispensável de ferramenta estratégica, atuando no mapeamento e gestão de riscos, de preservação de capital e transparência. Como exemplo temos a atividade de mensuração do Capital Natural, que identifica, quantifica e monetiza os ativos da natureza e os serviços ecossistêmicos, bem como os custos da degradação.  Os resultados financeiros demonstram ao produtor que preservar as áreas protegidas não é custo, e sim investimento no seu próprio negócio, que traz também ganhos coletivos, mesmo que deixe de ser uma exigência legal. Além disso, o mercado internacional e as grandes cadeias globais de suprimentos operam com diretrizes (e legislações) cada vez mais exigentes e rigorosas quanto à rastreabilidade e responsabilidade socioambiental. A contabilidade, ao reportar métricas ESG claras e auditáveis, protege a reputação das empresas do agronegócio, evitando barreiras comerciais e restrições de exportação. Por fim, a própria insegurança jurídica gerada por flexibilizações normativas, que abre margem para futuras penalizações ou revisões regulatórias reversas, exige uma postura proativa na mitigação de riscos. É nesse cenário de incertezas que a atuação contábil se consolida: fornecendo dados estruturados e indicadores concretos que comprovam as melhores práticas do agronegócio, garantindo que o crescimento econômico caminhe junto com a preservação dos recursos naturais.

CRCPR Online: Como o evento CRCPR em Sua Região, que conecta temas atuais com transformações do cenário contábil, e sua palestra contribuem para o debate sobre ESG e sustentabilidade, ampliando a visão estratégica das organizações, especialmente em regiões ligadas ao agronegócio e ao desenvolvimento produtivo?

FFP: Apesar de sustentabilidade ser uma agenda antiga, que teve início principalmente com a proposição do conceito de “desenvolvimento sustentável” em 1987, ainda é um grande desafio para as empresas, cooperativas e outros negócios incluírem as questões sociais e ambientais como estratégia e processo cotidianos. Muitas ainda acreditam que são práticas exclusivas das grandes empresas e que demandam altos investimentos, mas cada vez mais as exigências de mercado e, também, os incentivos (como os “Títulos Verdes” ou “Green Bonds”) demandam práticas e reporte relacionados ao ESG. A proposta da palestra “Da Conformidade à Estratégia: A Contabilidade na Agenda ESG”, que acontecerá no evento CRCPR em sua Região, em 16 de julho, é auxiliar contadores e contadoras a compreender o conceito de Sustentabilidade/ESG; reconhecer o valor da atuação em ESG para os negócios; identificar os principais riscos ambientais, sociais e de governança de seu negócio; identificar os principais públicos de relacionamento e oportunidades em ESG; perceber a conexão entre os conteúdos abordados e sua atuação no dia a dia. O encontro será uma ótima oportunidade para esclarecer dúvidas, trocar experiências e aprofundar os conhecimentos na temática, gerando instrumentos para a prática da sustentabilidade, incluindo ações com baixo custo ou que possam gerar retorno financeiro em longo prazo. O evento é estratégico em especial em regiões tão relevantes para o agronegócio e o desenvolvimento produtivo, que tem um papel econômico crucial, mas também uma responsabilidade enorme por seus impactos ambientais e sociais. Para inscrever-se no evento CRCPR em sua Região, clique aqui!

CRCPR Online: Considerando que estamos na Semana do Meio Ambiente e do Dia Mundial do Meio Ambiente, qual mensagem considera mais urgente para profissionais, empresas e gestores que ainda enxergam a pauta ambiental apenas como tendência passageira e não como uma questão estratégica para o futuro econômico e social do país?

FFP: Acredito que a questão-chave é que o planeta Terra vai sobreviver. Mesmo que com muitas espécies extintas, com o clima e o ambiente alterado, com poluição e tantos outros problemas... Ele vai sobreviver. nosso planeta já passou por eras glaciais, acredita-se que a Terra congelou por completo, e por períodos de estufa decorrente de atividades vulcânicas extremas, com temperaturas nas regiões continentais equatoriais que podiam chegar a 60°C. Quem não consegue sobreviver a esses extremos somos nós, os seres humanos, junto com muitas outras espécies. Já podemos perceber os efeitos das mudanças climáticas, as ondas de calor extremo que quebram recordes históricos, as secas prolongadas que interferem a produtividade no campo e as enchentes severas que devastam infraestruturas inteiras e paralisam economias locais. O que antes parecia uma projeção distante para o final do século já é a realidade do nosso presente. Nesse cenário, a pauta ambiental deixa de ser uma questão passageira de idealismo ou ativismo, e passa a se consolidar como obrigatória para nossa sobrevivência e para a viabilidade econômica. Um exemplo prático é o efeito devastador dos eventos climáticos extremos, que desestruturam as cadeias de suprimentos, encarecem matérias-primas e produtos, inviabilizam a logística, e alteram ou até destroem ciclos inteiros de plantio e colheita, dentre outros graves impactos. E, voltando nosso foco para o papel da contabilidade, um argumento crucial é o atual cenário financeiro e de risco. Bancos, fundos de investimento, seguradoras e parceiros nacionais e internacionais passaram a exigir demonstração de governança e conformidade com as normas globais, como as IFRS S1 e S2. O custo do capital será cada vez mais alto, ou simplesmente inacessível, para quem ignorar a incorporação do ESG aos negócios. Celebrar a Semana do Meio Ambiente e o Dia Mundial do Meio Ambiente não deveria ser apenas um ato simbólico no calendário corporativo, mas sim um momento de reconhecimento de que proteger os recursos naturais é proteger a própria perpetuidade dos negócios e a nossa sobrevivência. Lembrem-se: o Planeta Terra continuará aqui, mas será que a espécie humana também?

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