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Contabilidade, também uma commodity?

Por 20/09/2016 00:00

Contabilidade, também uma commodity?

Não é nenhum segredo para os brasileiros que passam pelos bancos escolares que, desde os primeiros momentos do descobrimento do Brasil, nossas riquezas naturais têm sido extraídas em larga escala para abastecer mercados externos; algumas até à exaustão, caso do pau-brasil, nossa primeira commodity. Vieram em seguida a cana-de-açúcar, o ouro, o algodão, o café, a borracha - alguns desses ciclos escrevendo tristes capítulos da nossa história, marcados pelo trabalho escravo.

Depois de 100 anos de atraso em nossa industrialização, aprendemos que é mais vantajoso transformar matérias-primas em produtos com maior valor agregado. Mas nem bem saímos da fase mecânica, e, já em plena Revolução Informacional, avanços acontecendo em ritmo impressionante, e nosso país ainda depende, para equilibrar sua balança comercial, da venda de commodities, como petróleo, café, suco de laranja, minério de ferro, carne, soja, alumínio -, à mercê dos "humores" internacionais. Commodities representam mais de 50% do total das exportações brasileiras, destinadas principalmente aos mercados chinês, americano e europeu.

Ainda bem, diriam alguns! Temos o que vender e há quem compre nossos produtos! A questão é que exportamos matéria-prima barata e importamos manufaturados caros; estamos alargando nossas fronteiras de produção, entrando em regiões sensíveis como a Amazônia e o Cerrado; não estamos consolidando o projeto de desenvolvimento sustentável; não estamos evoluindo industrialmente, investindo em ciência, tecnologia, educação, inovação.

O pior é que essa carência de valor agregado não parece depreciar apenas nosso rico patrimônio natural, mas se estende também a atividades fundamentais, igualmente lentas em sua evolução. Posso falar com propriedade da contabilidade - minha área. A profissão é uma das mais valorizadas nas economias desenvolvidas, enquanto aqui ainda é uma espécie de commodity, uma potência em estado bruto.

Seguindo essa cultura geral, há séculos, a atividade contábil brasileira mantém o viés de apenas fazer o registro das riquezas e os profissionais de atuarem como despachantes do fisco. Mateus, o santo padroeiro da profissão, já fazia isso no primeiro século da era cristã. A simples repetição mecânica de operações contábeis desembocou em um quadro crítico, carente de ética, de qualidade nos serviços e aviltamento de honorários.

A boa nova é que estamos em transição. A classe contábil já percebeu a oportunidade desenhada pelo cenário que vem sendo construído, no país, pela adoção de novas tecnologias, do Sistema Público de Escrituração Digital, a convergência às normas internacionais de contabilidade. Com a contabilidade digital, o trabalho contábil está cada vez mais próximo de um bem de altíssimo valor agregado - essencial para as empresas e órgãos públicos. Claro que, como se trata de grande mudança, pode levar algum tempo para se concretizar.

Nada mais atual na contabilidade do que a velha máxima: lidera quem tem conhecimento - o que vale para o Brasil, na sua relação com o mundo globalizado. Os países que mais investem em saber são os que estão encontrando as melhores soluções para seus desafios, mais rapidamente superando atrasos.

Indiscutivelmente, o valor de tudo é ditado pelo conhecimento; e, como sabemos, produzimos conhecimento hoje em ritmo alucinante, em todas as áreas. Nas últimas décadas, geramos mais informação do que havíamos acumulado desde a Pré-história.

Com programas e softwares fazendo o trabalho repetitivo, a ruptura, o salto para o novo, na contabilidade, passa pela assimilação de uma postura mais pensante, analítica, criativa; sem deixar de ser técnico, o profissional sendo capaz de interpretar as peças e dados contábeis, fazer projeções; apresentar enfim serviços com alto valor agregado.

Muito mais do que conjuntos de demonstrações, números e gráficos frios, a contabilidade é um instrumento poderoso de gestão, capaz de atender todas as complexidades das empresas e da administração pública, ensinando-as a enfrentar as crises, promover crescimento, riqueza, desenvolvimento humano. Mas, antes, é preciso que os nossos profissionais se valorizem, invistam em qualificação, conhecimento.

Laudelino Jochem
Contador, empresário da contabilidade e vice-presidente do CRCPR
E-mail: laudelino@jel.com.br



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