Startups e capital de risco, o que pesa na decisão dos investidores e onde entra a liderança feminina

Publicado em 24/03/2026 14:00 · por Helena Michelli Ferreira Romanin

Resumo do artigo dos autores Emanoella Santos Goncalves da Silva, Ani Caroline Grigion Potrich, Ana Luiza Paraboni e Otávio Kich Mata

Artigo: Startups e capital de risco, o que pesa na decisão dos investidores e onde entra a liderança feminina

"Na disputa por investimento, nem sempre o que mais chama atenção é o faturamento projetado ou a planilha financeira. Um estudo publicado na RC&C Revista de Contabilidade e Controladoria mostra que, no Brasil, a decisão de investir em startups continua fortemente ancorada em quem lidera o negócio. A pesquisa, assinada por Emanoella Santos Goncalves da Silva, Ani Caroline Grigion Potrich, Ana Luiza Paraboni e Otávio Kich Mata, da Universidade Federal de Santa Catarina, revela que o perfil do empreendedor ocupa o centro da análise dos fundos, enquanto a presença de mulheres na liderança ainda aparece mais no discurso do que como critério efetivo de seleção.

O estudo teve como objetivo avaliar quais fatores influenciam a tomada de decisão de investidores de capital de risco no Brasil durante a análise de startups, e também compreender como a presença de mulheres na liderança é considerada nesse processo. Para isso, os autores conduziram uma pesquisa quantitativa, descritiva, com questionário on line de 25 perguntas, respondido por 42 profissionais da indústria de venture capital, a partir de um universo de 150 convidados. O instrumento foi organizado em quatro blocos, cobrindo perfil dos participantes, hierarquia dos fatores de decisão, fatores específicos de análise e percepção sobre liderança feminina.

Os resultados mostram uma ordem bastante clara entre os critérios avaliados. O perfil do empreendedor foi apontado como o fator de maior relevância, ficando em primeiro lugar para 52,38% dos respondentes. Em seguida, aparecem produto/serviço e mercado, com peso semelhante, depois a formação do time. As métricas financeiras ficaram em último lugar na classificação geral, embora os autores ressaltem que elas seguem tendo peso para a conclusão do investimento. A leitura proposta no artigo é que, em fases iniciais, os investidores buscam âncoras de confiança em um ambiente de alta incerteza, e essas âncoras continuam muito concentradas na figura do fundador.

Quando a análise desce para aspectos mais específicos, o retrato fica ainda mais nítido. 80,95% afirmaram que não investem em startups sem protótipo disponível. Ao mesmo tempo, 57,14% disseram que podem investir mesmo sem modelo de receita concluído, e 73,81% não descartam negócios que atuam em mercados com muitos concorrentes. Outro dado que chama atenção é que 95,24% discordam da ideia de que a personalidade do empreendedor não importa, ou seja, para quase todos os participantes esse aspecto pesa na decisão. A formação educacional e a trajetória profissional também aparecem com força, já que 57,14% disseram levar esse background em consideração e 40,48% responderam que isso ocorre às vezes.

A parte mais sensível do estudo surge na discussão sobre liderança feminina. Embora 95,24% dos investidores digam considerar relevante a diversidade de gênero na liderança das startups, a maioria não transforma essa percepção em prática de seleção. 61,90% afirmaram que sua gestora não adotaria como critério de escolha investir em startup com pelo menos uma mulher na liderança ou no captable. Também 71,43% disseram não ter processo de originação voltado a alguma pauta de diversidade. O resultado é coerente com a composição atual dos portfólios analisados, já que 85,71% dos respondentes declararam investir em startups lideradas por mais homens do que mulheres.

O estudo mostra ainda que a percepção sobre o fundraising de homens e mulheres não é neutra. 52,38% entendem que há diferença no processo de captação quando a startup é liderada por uma mulher, enquanto 47,62% não percebem diferença. Já sobre negociação, a maioria, 69,05%, não considera que mulheres sejam menos agressivas que homens, embora uma parcela ainda responda “talvez”, o que indica que o tema segue atravessado por estereótipos e leituras ambíguas. Para os autores, há um descompasso entre o reconhecimento público da diversidade e sua baixa incorporação como fator formal de decisão.

Na prática, o trabalho oferece dois recados. Para empreendedores, ele mostra que o capital de risco no Brasil continua olhando primeiro para o fundador, sua trajetória, sua capacidade de articulação e o estágio concreto do produto. Para os fundos, o estudo expõe que processos tidos como neutros podem manter barreiras já conhecidas, sobretudo quando a diversidade é valorizada apenas como ideia de fomento, e não como elemento presente na lógica de seleção. O artigo termina sugerindo a necessidade de critérios mais transparentes e mais coerentes com o discurso de equidade no ecossistema de inovação".

Para mais informações, contate as autoras:

O artigo completo, intitulado “O artigo completo, intitulado “Evolução e Inovação Tecnológica na Contabilidade Sob a Ótica da Teoria Institucional”, foi publicado na RC&C Revista de Contabilidade e Controladoria, e pode ser acessado através do link : 

https://revistas.ufpr.br/rcc/article/view/99224

 

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