RESUMO: Pesquisa publicada na RC&C – Revista de Contabilidade e Controladoria da UFPR analisou como a produção acadêmica tem investigado a representação dos profissionais da contabilidade em obras culturais, como livros, filmes, séries e outros meios de comunicação. O estudo identificou uma predominância de pesquisas focadas em artefatos tradicionais e apontou a necessidade de ampliar as análises para ambientes digitais e novas formas de interação. Os resultados contribuem para a reflexão sobre a imagem da profissão contábil e seus impactos na formação, na percepção pública e na identidade profissional.
Artigo: sete décadas de pesquisa sobre a imagem do contador se concentram em livros e filmes, e só um estudo olhou para o ambiente digital
"A literatura acadêmica que investiga como o contador aparece em romances, filmes, séries e piadas construiu, ao longo de quase sete décadas, um repertório metodológico bastante estável, que privilegia artefatos culturais consolidados. Dos 39 artigos reunidos numa revisão publicada na RC&C. Revista de Contabilidade e Controladoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR) apenas um analisou ambientes digitais interativos. O trabalho é assinado por Rafael Todescato Cavalheiro, doutor em Controladoria e Contabilidade, e Andréia Maria Kremer, doutora em Administração, ambos da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).
A lacuna enfrentada pelos autores não está no conteúdo dessas representações, e sim no modo como elas vêm sendo investigadas. Estudos anteriores já mostraram que obras literárias, filmes, séries televisivas, charges e caricaturas participam da construção simbólica da identidade profissional, influenciando percepções públicas, expectativas de carreira e narrativas de legitimidade. A dimensão metodológica desses trabalhos, porém, raramente é discutida, aparecendo em geral como decisão instrumental subordinada à análise dos materiais culturais. A pergunta que orientou a pesquisa foi outra: quais estratégias, pressupostos e limites analíticos estruturam esse subcampo?
Para responder, os autores fizeram uma revisão de literatura com orientação interpretativista, abordagem apropriada quando o interesse recai sobre as práticas de pesquisa adotadas num campo específico. As buscas foram realizadas na Web of Science (Coleção Principal), Scopus, SciELO e Spell, nos campos de título, resumo e palavras-chave, com combinações como 'accountant representation' e 'popular culture', 'accounting stereotype' e 'film', além de descritores adaptados ao português e ao espanhol, como 'representação do contador' e 'estereótipo contábil'. As buscas automatizadas foram complementadas por backward citation searching, procedimento de verificação sistemática das listas de referências dos artigos já incluídos, usado para recuperar trabalhos que a indexação das bases não alcançou. O corpus final reuniu 39 artigos revisados por pares, publicados entre 1958 e 2025. Não houve filtro de idioma, país de origem, estrato Qualis, fator de impacto ou posição do periódico em rankings.
O mapeamento das estratégias metodológicas mostra concentração acentuada. A análise de conteúdo qualitativa, que trata os artefatos culturais como textos simbólicos relativamente estáveis e passíveis de codificação, aparece em 23 dos 39 estudos. A pesquisa histórica ou arquivística, que situa cada artefato em seu momento de produção, comparece em 19 trabalhos, muitas vezes combinada com a primeira. A análise fílmica, voltada a imagens, enquadramentos, trilhas sonoras e construções dramáticas, está em 6 estudos, e a análise de discurso, que entende a representação como prática discursiva e não como espelho de valores sociais, em 5. Do lado oposto da distribuição, a análise de conteúdo quantitativa, que codifica e conta atributos associados ao contador, foi empregada em apenas 3 trabalhos, os estudos longitudinais em 2 e a netnografia, exame de interações e conteúdos em ambientes digitais, em um único caso, o de Miley e Read, de 2012.
A escolha das fontes empíricas segue a mesma lógica. A literatura é o material mais frequente do corpus, seguida pelo cinema e, em menor medida, pela televisão. Artefatos humorísticos, como piadas, charges e cartuns, aparecem em um conjunto menor de trabalhos, tratados como espaço privilegiado de condensação simbólica, no qual estereótipos profissionais são explicitados, exagerados ou normalizados. Histórias em quadrinhos, mídias profissionais e ambientes digitais figuram de forma pontual. O efeito acumulado dessas escolhas é a estabilização de arquétipos reconhecíveis, com destaque para o beancounter, expressão que designa o contador reduzido a contador de feijões, ao lado das imagens do técnico neutro, do burocrata sem sensibilidade social e do personagem moralmente ambíguo.
Os recortes históricos e culturais reforçam o diagnóstico. Parte relevante do corpus se concentra em períodos associados à formação e à consolidação da profissão, entre o final do século XIX e o pós-guerra, sob o entendimento implícito de que as representações iniciais do contador exercem influência estruturante sobre imaginários posteriores. Outro conjunto focaliza momentos de crise de legitimidade e transformação institucional, quando a produção simbólica sobre a profissão se intensifica. Quanto ao contexto cultural, há forte predominância de estudos situados no Reino Unido e nos Estados Unidos. Trabalhos ambientados em Portugal, no Brasil, na China e em outros contextos ampliam a sensibilidade cultural do subcampo, mas permanecem numericamente minoritários, o que impõe limites à generalização das imagens analisadas.
Para quem leciona, pesquisa ou atua na profissão, o texto oferece dois recados concretos. O primeiro diz respeito ao uso de filmes e obras literárias em sala de aula. As imagens do contador que circulam nesses materiais foram estabilizadas por um repertório de pesquisa que privilegia artefatos duradouros e contextos anglo-saxões, de modo que trazê-las para a formação brasileira sem contextualização significa importar arquétipos que nunca foram testados no ambiente cultural local. O segundo aponta para uma agenda em aberto. Os autores sugerem pesquisas de recepção com estudantes de Ciências Contábeis capazes de examinar como essas imagens participam da formação de expectativas de carreira, da identificação profissional e da percepção ética, diálogo que remete às discussões recentes sobre impacto social da pesquisa em educação contábil. Sugerem ainda deslocar parte da atenção para redes sociais, memes, vídeos curtos, fóruns digitais, plataformas de streaming e conteúdos produzidos por usuários, ambientes em que a imagem profissional é negociada e contestada em tempo real.
O próprio artigo delimita o alcance dos resultados. O corpus foi construído a partir de critérios explícitos de aderência conceitual, sem pretensão de exaustividade bibliométrica, e privilegiou estudos voltados aos produtos culturais e a seus significados. Por essa razão, os achados não sustentam conclusões diretas sobre como estudantes, profissionais ou públicos externos recebem essas representações. A análise dependeu também do grau de detalhamento metodológico oferecido pelos próprios estudos revisados, o que pode ter limitado a identificação de decisões analíticas implícitas. Os autores apresentam o trabalho como reflexão metodológica situada, e não como resultado empírico generalizável".
Para mais informações, contate os autores:
Rafael Todescato Cavalheiro - rafaeltodescato@hotmail.com
Andréia Maria Kremer - andreiakremer@hotmail.com
O artigo completo, intitulado “Como a pesquisa contábil estuda o contador na cultura popular: uma reflexão metodológica sobre estratégias, pressupostos e limites analíticos” , foi publicado na RC&C. Revista de Contabilidade e Controladoria, e pode ser acessado através do link: https://revistas.ufpr.br/rcc/article/view/102742
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