Artigo: Quando a injustiça organizacional se transforma em retaliação no ensino superior público
"Tratamento interpessoal inadequado, procedimentos vistos como injustos e ambiente institucional desgastado podem estimular respostas retaliatórias entre docentes, mesmo sem afetar diretamente a execução formal de suas tarefas. Essa é a principal mensagem de um estudo publicado na Advances in Scientific and Applied Accounting, assinado por Camila Helfenstein, Francisco Gleisson Paiva Azevedo e Luciana Klein, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A pesquisa analisou como diferentes dimensões da injustiça organizacional se relacionam com a retaliação e com o desempenho de tarefas de professores de instituições públicas de ensino superior brasileiras, tema relevante em um contexto de sobrecarga, múltiplas exigências e crescente pressão sobre o trabalho docente. O estudo adotou abordagem quantitativa, de caráter descritivo e de levantamento, com dados coletados por meio de survey junto a 125 docentes de cursos de graduação da área de negócios em instituições públicas de ensino superior do Brasil. Para examinar as relações propostas, os autores utilizaram Modelagem de Equações Estruturais por mínimos quadrados parciais, PLS-SEM, após definir que a amostra mínima necessária seria de 109 casos. O grupo analisado é composto por docentes experientes e altamente qualificados, com predominância de profissionais entre 46 e 55 anos, maioria com doutorado e forte presença de professores que também já exerceram cargos de liderança acadêmica.
A pesquisa parte de três dimensões da justiça organizacional, distributiva, processual e interacional, e as relaciona a três dimensões da retaliação, percepção, julgamento e atitude retaliatória. A ideia central é investigar se percepções de injustiça no ambiente acadêmico podem estimular respostas negativas por parte dos docentes e, em seguida, comprometer o desempenho das tarefas. No plano teórico, o artigo chama atenção para o fato de que o ensino superior público reúne características que podem ampliar tensões, como distribuição de trabalho, regras institucionais rígidas, falhas de comunicação e redução da autonomia profissional.
Os resultados evidenciam que a injustiça processual apresentou associação positiva com a percepção de retaliação, sinalizando que decisões, procedimentos e políticas vistos como injustos favorecem a percepção de comportamentos retaliatórios no ambiente de trabalho. Já a injustiça interacional mostrou relação com o julgamento e com as atitudes retaliatórias, sugerindo que tratamentos interpessoais inadequados, desrespeitosos ou marcados por falhas de comunicação podem levar docentes a considerar aceitáveis ou até adotar respostas retaliatórias. Em contraste, a injustiça distributiva não se mostrou relacionada à retaliação organizacional entre os docentes analisados, possivelmente porque, no setor público, recompensas e promoções tendem a seguir regras mais padronizadas e menos associadas a benefícios individualizados.
Um dos achados mais relevantes do artigo está justamente no que não foi conferido. Embora a retaliação surja em resposta a injustiças percebidas, não foi encontrada influência desses comportamentos sobre o desempenho das tarefas. Em outras palavras, os docentes podem perceber, julgar ou até desenvolver atitudes retaliatórias, mas isso não apareceu, no modelo testado, como fator capaz de reduzir diretamente o cumprimento de suas atividades. Os autores interpretam esse resultado à luz das características do trabalho docente no ensino superior público, nos quais a atuação profissional está vinculada a avaliações, exigências formais de produtividade e múltiplas responsabilidades que tendem a sustentar a execução das tarefas, mesmo em ambientes percebidos como injustos. Os achados oferecem pistas importantes para a gestão universitária.
O estudo sugere que práticas de avaliação de desempenho, mecanismos de controle, qualidade da comunicação e relações interpessoais merecem atenção, pois injustiças ligadas a procedimentos e à forma de tratamento podem fomentar insatisfação e respostas retaliatórias. A contribuição prática do artigo está em mostrar que reduzir conflitos no ensino superior público não depende apenas de metas de desempenho, mas de um ambiente percebido como mais justo, respeitoso e equilibrado. Para as instituições, isso significa rever rotinas decisórias, fluxos de comunicação e formas de interação com os docentes."
Para mais informações, contate os autores:
Camila Helfenstein - camilahelfenstein@ufpr.br.
Francisco Gleisson Paiva Azevedo - franciscogleisson@ufpr.br.
Luciana Klein - lucianaklein@ufpr.br
O artigo completo, intitulado “Quando a injustiça organizacional se transforma em retaliação no ensino superior público”, foi publicado na Advances in Scientific and Applied Accounting, e pode ser acessado através do link:
https://asaa.anpcont.org.br/asaa/article/view/1276/877
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