RESUMO: Pesquisa publicada na RC&C – Revista de Contabilidade e Controladoria da UFPR indica que práticas ambientais, sociais e de governança estão associadas a maior relevância das informações contábeis para a precificação de empresas do agronegócio listadas na B3. O estudo, conduzido por pesquisadoras da UFSM, analisou dados de companhias abertas do setor e identificou relação positiva entre divulgação ESG e valor de mercado. Os resultados reforçam a importância da transparência e da sustentabilidade como elementos que agregam valor às organizações e à atuação contábil.
Artigo: práticas ESG no agro elevam a relevância da informação contábil e o selo do ISE pesa ainda mais
"Empresas do agronegócio listadas na B3 que reportam práticas ambientais, sociais e de governança têm suas informações contábeis melhor incorporadas ao valor de mercado. É o que indica pesquisa publicada na RC&C. Revista de Contabilidade e Controladoria, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), assinada por Laura Alegretti de Souza e Silva, Andressa Pavanatto Lopes e Mikaéli da Silva Giordani, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
O estudo partiu de uma lacuna específica. Trabalhos anteriores já haviam relacionado desempenho de ESG e relevância da informação contábil em empresas brasileiras e estrangeiras, mas nenhum recortou o setor agro, responsável por 24% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2023, conforme dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA) citados no artigo. A pergunta que orientou a investigação foi direta: práticas ESG afetam a capacidade dos números contábeis de explicar o valor de mercado das empresas do agro?
A população reuniu as 71 companhias abertas classificadas pela B3 no setor agro. Dessas, 57 apresentaram dados suficientes para estimar o modelo no período de 2013 a 2023. As informações foram coletadas na base LSEG Data & Analytics e tratadas com winsorização ao nível de 1%. A análise recorreu a regressões por mínimos quadrados ordinários, com erros-padrão corrigidos para heterocedasticidade e efeito fixo de ano.
O modelo de referência foi o de Cormier e Magnan (2016), que toma o market-to-book como variável dependente, ou seja, a razão entre o valor de mercado e o valor contábil do patrimônio. Como variáveis explicativas entram o patrimônio líquido por ação e o retorno sobre o patrimônio líquido. Sobre essa base, as pesquisadoras acrescentaram o escore ESG, medido de 0 a 1, testado tanto de forma agrupada quanto separado nos três pilares, e uma variável indicadora de participação no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE).
A fotografia do setor já chama atenção antes das regressões. O market-to-book médio ficou em 1,84, indicando que o mercado precifica essas companhias, em média, perto de duas vezes o valor contábil do patrimônio. O retorno sobre o patrimônio líquido médio foi de 10,4%. Já os escores de sustentabilidade, no entanto, revelam reporte ainda restrito: 18,6% no pilar ambiental, 18,3% no social e 15,6% no de governança, com média geral de 17,5%. A mediana dos três pilares é zero, o que significa que mais da metade das observações não registra reporte ESG na base consultada. Pouco mais de 28% das observações correspondem a empresas integrantes do ISE.
O modelo estimado sem as variáveis de sustentabilidade explicou 53,16% da variação do market-to-book. Patrimônio líquido por ação e retorno sobre o patrimônio líquido apresentaram relação positiva e significativa ao nível de 1%. Com a entrada do escore ESG, o poder explicativo subiu cerca de um ponto percentual e o coeficiente do ESG ficou positivo e significativo ao nível de 1%, com valor de 0,68. Separados, os três pilares mantiveram o mesmo comportamento, com coeficientes de 0,63 para o ambiental, 0,69 para o social e 0,60 para o de governança.
Um detalhe do desenho merece leitura cuidadosa. As interações entre o escore ESG e as variáveis contábeis não se mostraram significativas. Em outras palavras, o ESG desloca o nível do market-to-book, mas não altera a sensibilidade do mercado ao lucro ou ao patrimônio em si. A leitura sustentada pelo artigo é que a informação socioambiental funciona como conteúdo adicional relevante para o investidor, e não como um filtro que muda o peso dos números contábeis.
Quando a participação no ISE entra no modelo, o poder explicativo sobe para a faixa de 56,65% a 56,86%, e a variável do índice aparece positiva e significativa ao nível de 1%. O achado mais instigante está no que acontece na sequência: na presença do ISE, o escore ESG isolado perde significância estatística. As autoras interpretam esse comportamento como sinal de que a inclusão na carteira funciona, para o mercado, como validação suficiente do compromisso socioambiental, reduzindo o efeito marginal da divulgação ESG considerada por si só.
Para conferir consistência aos achados, foi estimado um segundo modelo, baseado em Collins, Maydew e Weiss (1997), que substitui o market-to-book pelo preço da ação três meses após o encerramento do exercício e adota patrimônio por ação e lucro por ação como explicativas. O poder explicativo caiu para a faixa de 17,03% a 22,23%, e apenas o patrimônio por ação manteve significância. Mesmo com desempenho inferior, o teste preservou a direção dos resultados principais, com o ESG agregado positivo e significativo ao nível de 1% e o ISE ao nível de 5%.
Para quem atua em contabilidade, controladoria e relações com investidores no agronegócio, o trabalho oferece dois recados de ordem prática. O primeiro é que reportar dados ambientais, sociais e de governança tem correspondência mensurável no valor de mercado, mesmo antes de exigência normativa consolidada. A NBC TDS 01, publicada pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC) em 29 de outubro de 2024, aparece no artigo justamente para destacar empresas que já divulgavam essas informações sem obrigação legal. O segundo é que a divulgação parece pesar mais quando validada por terceiros, o que transforma a entrada em índices de sustentabilidade em decisão de comunicação com o mercado, e não apenas de posicionamento institucional.
O próprio artigo delimita o alcance dos resultados. O modelo de relevância adotado, embora consolidado na literatura, pode não capturar particularidades operacionais do agronegócio, e a adoção de uma única base de dados ESG restringe a comparação entre metodologias de escore. As autoras sugerem estender a análise a outros setores, períodos e mercados, bem como aplicar modelos alternativos de relevância contábil".
Para mais informações, contate os autores:
Laura Alegretti de Souza e Silva - lauraalegretti7@gmail.com
Andressa Pavanatto Lopes - andressaplopes18@gmail.com
Mikaéli da Silva Giordani - mikaeli.giordani@ufsm.br
O artigo completo, intitulado “Práticas ESG e relevância da informação contábil: análise do setor agro” , foi publicado na RC&C. Revista de Contabilidade e Controladoria, e pode ser acessado através do link: https://revistas.ufpr.br/rcc/article/view/103069
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