"Porte, idade e perfil da dívida da compradora acompanham o motivo declarado nas aquisições de companhias abertas, e a liquidez fica de fora"

Publicado em 03/11/2026 11:00 · por Helena Michelli Ferreira Romanin - Comunicação, Karin Oliveira - Comunicação

Resumo do artigo dos autores André Porfírio de Almeida e Suliani Rover

RESUMO: Pesquisa desenvolvida por pesquisadores da UFSC analisou 140 combinações de negócios realizadas por companhias abertas brasileiras entre 2010 e 2019 e identificou associações entre o perfil das empresas adquirentes e as justificativas apresentadas para as aquisições. O estudo apontou que empresas de menor porte tendem a justificar operações por objetivos administrativos, como expansão de mercados, enquanto empresas com características intermediárias relacionam as aquisições a ganhos operacionais, como sinergias e redução de custos.

Artigo: "Porte, idade e perfil da dívida da compradora acompanham o motivo declarado nas aquisições de companhias abertas, e a liquidez fica de fora"

"Entre as companhias abertas brasileiras que compraram outras empresas no período de 2010 a 2019, as de menor porte estão associadas a justificativas administrativas como a ampliação do domínio sobre as vendas ou a entrada em novos mercados. Já as empresas de idade intermediária e com parcela moderada de dívidas com vencimento no curto prazo estão ligadas a justificativas operacionais, como o ganho de escala e a redução de custos. Os indicadores de liquidez não mostraram relação com nenhum tipo de motivo. A pesquisa foi realizada por André Porfírio de Almeida e por Suliani Rover, ambos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sendo publicada na RC&C - Revista de Contabilidade e Controladoria, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O Pronunciamento Técnico do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) 15 (R1), que aborda combinações de negócios, prevê que a adquirente divulgue os motivos da operação. Para os autores, explicar essas razões tende a elevar a confiança na gestão, visto que comprar outra sociedade consome caixa e pode afetar a distribuição de dividendos e de juros sobre o capital próprio. Eles partem da ideia de que o motivo precisa guardar coerência com o perfil de quem compra, já que uma adquirente sem experiência acumulada ou sem estrutura suficiente pode não suportar o processo. Estudos realizados em outros países chegaram a conclusões divergentes, e havia pouca evidência para o mercado brasileiro. A pergunta foi direta: os motivos das aquisições feitas por companhias abertas no Brasil se associam aos atributos das compradoras?

Os pesquisadores levantaram 670 documentos de assembleias gerais extraordinárias no sítio da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), entre protocolos e justificações de incorporação, fusão ou cisão, e descartaram 247 que não tratavam de aquisição de controle. Uma operação só entrou na amostra quando aparecia também nas notas explicativas das Demonstrações Financeiras Padronizadas (DFP), critério adotado, pois muitas aquisições são noticiadas e não chegam a se concretizar. O filtro resultou em 140 combinações de negócios realizadas por 68 companhias abertas de 25 setores. O período começa em 2010, ano da adoção das normas internacionais de contabilidade no país, e termina em 2019, antes da pandemia.

Os motivos declarados foram classificados em quatro grupos. Os administrativos reúnem redução da concorrência, expansão e melhoria das vendas. Já os operacionais incluem sinergia, ganho de escala, novos produtos e corte de despesas. Os financeiros envolvem solidez financeira, reforço de caixa e financiamento de dívidas. Por fim, os contábeis e fiscais abrangem mais-valia de ativos e planejamento tributário por absorção de prejuízos. Do lado das compradoras, foram considerados fatores como idade, porte medido pelo ativo total, liquidez corrente, liquidez imediata, endividamento, participação de capitais de terceiros e rentabilidade. os indicadores foram divididos em quatro faixas, correspondentes aos quartis, e passaram por duas técnicas. A primeira consiste na análise de correspondência simples, apoiada no teste qui-quadrado, que verifica se duas variáveis organizadas em categorias guardam associação estatística. A segunda é a análise de homogeneidade, que examina diversas categorias ao mesmo tempo e as dispõe em um mapa, indicando se a proximidade tem intensidade fraca, média ou forte.

O setor de serviços médicos concentrou o maior número de operações, sendo 21 ao todo, feitas por apenas cinco compradoras. O ano de 2019 reuniu 23 aquisições, que representaram 16,40% do total. Já o ano de 2010 teve 22. As 140 operações foram justificadas por 308 motivos, sendo 107 financeiros, 86 administrativos, 86 operacionais e 29 contábeis ou fiscais. Em 15 dos 25 setores, nenhuma aquisição trouxe justificativa contábil ou fiscal.

O teste estatístico apontou dez associações entre motivos e atributos, sete delas com margem de erro inferior a 1% e três no nível de 5%. Liquidez corrente, liquidez imediata e participação de capitais de terceiros não se associaram a nenhum grupo de motivos. Os motivos financeiros, embora fossem os mais citados, só se ligaram ao porte e, por isso, ficaram fora da segunda etapa, que exige mais de duas variáveis. Os contábeis e fiscais mostraram associação com idade e porte, mas nenhuma com intensidade forte no mapa.

Na análise de homogeneidade, os motivos administrativos tiveram associação forte com as compradoras do quartil de menor porte da amostra. O artigo ilustra o padrão com a incorporação da Maeda S.A. Agroindustrial pela Brasil Ecodiesel, em 2010, justificada pelo domínio sobre as vendas, sem a limitação imposta pelos leilões de biodiesel, e pela diversificação em mercados com expectativa de crescimento.

Os motivos operacionais tiveram associação forte com três características. A primeira é a idade, nas duas faixas intermediárias, que cobrem empresas entre 18,75 e 56 anos de existência. A segunda característica é o porte, na faixa médio-baixa. A terceira é o endividamento, medido no estudo pela razão entre o passivo circulante e o capital de terceiros, que indica a proporção das obrigações com terceiros exigível no curto prazo. A associação forte foi identificada na faixa em que essa parcela varia de 19,8% a 30,1%. A compra da Quirios Produtos Químicos pela Nutriplant, em 2012, reúne duas dessas características e foi justificada por sinergia, redução de custos, novos produtos e verticalização da cadeia produtiva. Para o contador que elabora ou revisa notas explicativas de combinações de negócios, o estudo trata o motivo declarado como informação de interesse dos investidores e mostra que ele pode ser confrontado com o perfil da compradora. Quando uma adquirente de menor porte alega razões administrativas, ou uma empresa de idade intermediária, com parcela moderada de dívida de curto prazo, alega razões operacionais, a justificativa segue o padrão observado nas 140 operações. O critério de seleção da amostra serve de lição para analistas, auditores e controllers, pois o anúncio de uma aquisição não significa que a operação tenha sido efetivamente realizada. Para quem atua na área tributária, destaca-se que razões contábeis e fiscais, como aproveitamento de prejuízos e mais-valia de ativos, responderam por apenas 29 das 308 citações. Os autores apontam como interessados gestores, investidores, financiadores, controladores, contadores tributários e auditores de gestão, que podem utilizar esse panorama de dez anos ao avaliar decisões de investimento por meio de aquisições.

Os autores reconhecem como limitações o período analisado, a quantidade de operações, o teste estatístico empregado, a classificação setorial, que dependeu da base da CVM, e a subjetividade na classificação dos motivos, construída a partir da síntese do que as empresas registraram em seus documentos. O desenho mede associação entre categorias e não permite afirmar que porte ou idade determinem a razão da compra. Como agenda, sugerem aprofundar os motivos gerenciais das aquisições e analisar motivos socioambientais".

Para mais informações, contate os autores:

O artigo completo, intitulado “Associações dos Motivos das Combinações de Negócios e dos Atributos das Empresas Adquirentes Listadas no Mercado de Ações do Brasil”, foi publicado na RC&C - Revista de Contabilidade e Controladoria e pode ser acessado através do link: https://revistas.ufpr.br/rcc/article/view/101529.

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