RESUMO: O Fórum do Auditor 2026 reunirá especialistas nos dias 28 e 29 de setembro para debater os impactos das mudanças contábeis, tributárias e regulatórias na atividade de auditoria. Promovido pela Comissão CRCPR Auditoria Contábil, o evento abordará temas como os impactos da inteligência artificial na formação e no desenvolvimento de profissionais da contabilidade e da auditoria.
A transformação provocada pela inteligência artificial (IA) no mercado de trabalho também alcança a profissão contábil e traz novos desafios para a formação dos profissionais. Esse cenário será debatido por Eliza Bitencourt Albuquerque, doutoranda em Administração e especialista em especialista em desenvolvimento de talentos em início de carreira, Neurociência do Comportamento e Design Thinking, no segundo dia (29) do Fórum do Auditor 2026. Com o tema “Como Formamos a Próxima Geração de Profissionais?”, a palestra abordará competências e aspectos do desenvolvimento pessoal e profissional necessários para acompanhar as mudanças trazidas pela IA.
O Fórum do Auditor 2026 será transmitido entre os dias 28 e 29 de setembro, na TV CRCPR. Promovido pela Comissão CRCPR Auditoria Contábil, o evento reunirá especialistas para discutir temas que impactam diretamente a atuação dos profissionais da área e poderá valer até 6 pontos no Programa de Educação Profissional Continuada do Conselho Federal de Contabilidade (PEPC-CFC). Além do painel sobre IA, o encontro contará também com falas sobre governança corporativa, auditoria independente nas organizações, e os reflexos da Reforma Tributária do Consumo na contabilidade e na auditoria contábil. A capacitação será realizada das 9h ao 12h em ambos os dias. Para participar de todo o encontro, é necessário realizar a inscrição separadamente para cada dia do evento.
Em seu painel, Eliza Bitencourt Albuquerque apresentará conteúdos como a evolução dos casos de uso da IA generativa; cognitive surrender; camadas da cognição humana e metacognição; competências humanas que fazem a diferença; estratégias de contratação e desenvolvimento do talento nativo em IA; formação de auditores na visão da neurociência do comportamento, do design thinking e da aprendizagem ativa; e recomendações para profissionais em início de carreira e para líderes e organizações. Em entrevista ao CRCPR Online, a palestrante abordou o assunto de seu painel e a importância da capacitação e atualização de profissionais quanto ao tema.
Confira a seguir entrevista com a palestrante Eliza Bitencourt Albuquerque:
CRCPR Online: Como a inteligência artificial está transformando a forma como os profissionais aprendem, trabalham e tomam decisões?
Eliza Bitencourt Albquerque (EBA): A popularização do uso da IA generativa alcançou maiores proporções nos últimos anos, logo, seus impactos também estão sendo compreendidos, tanto nas formas de trabalho quanto na cognição humana, especialmente a longo prazo. No que tange à forma de trabalho, é inegável o potencial ganho para automatização de tarefas rotineiras, capacidade de análise de grandes volumes de dados. Um estudo de campo, demonstrou que implementar a IA de maneira estruturada em start ups duplicou as receitas e diminui em 40% a necessidade de captação. Por outro lado, no final do ano passado, o Massachusetts Institute of Technology (MIT) publicou que 95% das empresas ainda não conseguem ver retornos mensuráveis no investimento feito em IA. Do ponto de vista individual, observa-se que o uso de IA no contexto do trabalho representa 63% dos 100 principais usos de IA, segundo estudo recente publicado pela Harvard Business Review. O que em alguns casos pode ser um grande acelerador, enquanto em outros produz um trabalho superficial, com aparência aceitável, mas que acaba gerando mais trabalho para os colegas. Fenômeno que foi denominado como workslop (numa tradução literal, trabalho desleixado), um trabalho gerado por IA que aparenta ser um bom trabalho, porém que carece de substância. Na perspectiva cognitiva, a IA pode ao mesmo tempo facilitar o acesso à informação, seja ajudando a traduzir um texto numa língua que não falamos, seja ajudando a explicar um conceito que ainda não dominamos. No entanto, como a IA opera numa lógica de eficiência, com respostas probabilísticas e uma intenção de ser agradável, para que lá permaneçamos, ela também pode ser danosa à construção real de conhecimento. Levando à dependência excessiva ou produzindo uma Ilusão de Profundidade Explicativa, que é um viés cognitivo em que os seres humanos acreditam compreender fenômenos complexos com mais profundidade do que realmente compreendem.
No Fórum do Auditor 2026, o painel “Como Formamos a Próxima Geração de Profissionais?” será apresentado por Eliza Bitencourt Albuquerque
CRCPR Online: O que significa, na prática, estar preparado para trabalhar em parceria com a inteligência artificial? Como garantir que a tecnologia seja uma aliada no desenvolvimento profissional e não uma substituta do aprendizado?
EBA: Na minha visão, estar preparado para trabalhar em parceria com a IA é não renunciar à própria capacidade de pensar. Num experimento recente, pesquisadores de Wharton deram às pessoas a opção de usar ou não a IA para ajudar a responder um teste cognitivo- desenvolvido para verificar se a pessoa está acessando um sistema mais complexo deliberativo para tomada de decisão ou tomando decisões automáticas e sendo refém de erros sistemáticos. A IA desse teste estava configurada secretamente para errar 50% das respostas, porém, errava “com convicção”, como costumamos brincar. Ou seja, a redação da resposta era convincente, porém equivocada. Isso fez com que 80% dos participantes acatassem a recomendação errada da IA, sem nem pensar. Os autores denominaram esse fenômeno como cognitive surrender (rendição cognitiva, numa tradução literal). Diante da pressão de tempo e desempenho, ao qual todos nós estamos submetidos, é tentador delegar o pensamento para a IA. Porém precisamos saber diferenciar o que é automatizar uma tarefa de baixo valor agregado para nós de uma atividade, que mesmo que mais custosa, produzirá efeitos de aprendizado e capacidade cognitiva superiores. Ao invés de ler um artigo, é muito mais fácil pedir para a IA resumi-lo. Mas, experimente fazer isso sem um aprofundamento posterior, ou uma reflexão sistemática sobre o tema, para ver o quanto você se lembrará daquele conhecimento depois. Do ponto de vista cognitivo, é o limite tênue entre usar a IA como andaime, de forma temporária para alcançar novas capacidades cognitivas, e usar a IA como uma muleta. Quando o próximo desafio de negócio se apresentar, você terá aquele repertório estabelecido para poder desenvolver um ponto de vista único ou precisará recorrer a IA para obter uma resposta, que também está disponível para todos? Numa situação como essa, quem é o profissional que se diferenciará?
CRCPR Online: O que passa a ser mais valorizado no profissional quando determinadas tarefas começam a ser automatizadas?
EBA: Evidentemente, essa resposta dependerá muito do contexto de atuação de cada profissional. No entanto, no meu ponto de vista, pensamento crítico é a base de tudo. Até para aprender sobre os impactos da IA e pensar caminhos para se mater relevante, é preciso ter pensamento crítico. Ao ver alguém ditando a próxima grande verdade absoluta sobre a IA, se questionar-se sobre: Quem fala? De onde fala (repertório, posição)? Com qual interesse? Como dialoga com quem pensa diferente? O pensamento crítico é a capacidade de avaliar informações com objetividade e rigor lógico, distinguindo fatos de suposições, identificando falácias, questionando premissas e chegando a conclusões bem fundamentadas.
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