Artigo: contabilidade digital, o que muda quando a tecnologia deixa de ser apoio e passa a reorganizar a profissão?
"A tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio na contabilidade e passou a alterar rotinas, competências e formas de atuação profissional. Um estudo publicado na RC&C - Revista de Contabilidade e Controladoria, assinado por Bruna Luza, Tamara Gonçalves Falconi e Franciele Wrubel, analisou esse movimento sob a ótica da teoria institucional, buscando compreender como novas tecnologias modificam práticas contábeis tradicionais e quais pressões levam os profissionais a adotá-las.
A pesquisa parte de uma mudança concreta no cotidiano contábil. Registros em livros físicos, lançamentos manuais, notas fiscais em blocos, consultas em livros e ausência de sistemas integrados foram práticas comuns por muitos anos, mas vêm sendo substituídas por escrituração eletrônica, softwares contábeis, importação automática de dados, notas fiscais eletrônicas, SPED, certificados digitais e rotinas automatizadas. O estudo mostra que essa mudança não ocorre apenas por escolha técnica, mas por pressões do mercado, dos concorrentes e dos órgãos reguladores.
A investigação adotou abordagem qualitativa, com entrevistas semiestruturadas feitas com cinco contadores do Paraná, todos com mais de dez anos de experiência profissional. As entrevistas ocorreram em agosto e setembro de 2024, no qual foram gravadas, transcritas e analisadas com apoio do Atlas.ti. As autoras também recorreram a documentos dos escritórios, como atas de reuniões, sites, relatórios e documentos fiscais, para confrontar as informações obtidas nas entrevistas.
Os resultados indicam que a tecnologia atua como agente de desinstitucionalização no campo contábil. Em termos práticos, isso significa que práticas antes vistas como normais, legítimas e seguras vão perdendo espaço diante de novas rotinas digitais. A adoção dessas rotinas, segundo o artigo, decorre principalmente de pressões coercitivas e miméticas. As primeiras vêm de exigências legais e fiscais, como obrigações eletrônicas impostas por órgãos reguladores. As segundas aparecem quando escritórios e profissionais observam concorrentes mais digitalizados e buscam acompanhar o padrão do mercado.
Um ponto relevante é que as pressões normativas, ligadas à atuação de conselhos, sindicatos e associações profissionais, apareceram de forma menos consistente nas falas dos entrevistados. Isso sugere que muitos contadores têm conduzido sua adaptação tecnológica de modo mais autônomo, reagindo às exigências do fisco e à concorrência, em vez de receber orientação mais direta de entidades profissionais.
Entre os benefícios percebidos, os entrevistados apontam maior precisão das informações, menor incidência de erro em tarefas repetitivas, redução de papel, ganho de tempo, importação automática de documentos e maior possibilidade de atuação consultiva. Nesse cenário, o contador tende a se afastar gradualmente da imagem de profissional centrado apenas em escrituração e apuração, aproximando-se de uma função mais analítica, voltada ao apoio à tomada de decisão dos clientes.
O estudo, porém, não trata a tecnologia como solução neutra. A Figura 1, na página 10 do artigo, reúne riscos percebidos pelos entrevistados, como dependência da internet, excesso de confiança em processos automáticos, risco de obsolescência profissional, perda de contato pessoal, fragilidade na proteção de dados e receio de substituição por máquinas. Esse ponto torna a discussão mais prudente, porque mostra que digitalizar processos não elimina a responsabilidade técnica do contador.
Outro achado está nas competências exigidas do profissional contábil. Os entrevistados indicam que o contador precisa desenvolver comunicação, relacionamento com clientes, senso crítico, análise e interpretação de dados, conhecimento em gestão e domínio de ferramentas digitais. A inteligência artificial foi apontada como a principal tecnologia emergente para os próximos anos, ao lado da contabilidade 100% online.
A contribuição do artigo está em mostrar que a mudança tecnológica na contabilidade não é apenas operacional. Ela também altera padrões profissionais, expectativas do mercado e critérios de legitimidade. O contador que não acompanha esse movimento corre o risco de perder espaço, mas o profissional que adota tecnologia sem análise crítica também se expõe a riscos técnicos, éticos e de segurança da informação".
Para mais informações, contate os autores:
Bruna Luza - brunaluza1d@gmail.com
Tamara Gonçalves Falconi - tamaragoncalvess@gmail.com
Franciele Wrubel - franciele.wrubel@unioeste.br
O artigo completo, intitulado “Contabilidade digital, o que muda quando a tecnologia deixa de ser apoio e passa a reorganizar a profissão?”, foi publicado na RC&C - Revista de Contabilidade e Controladoria, e pode ser acessado através do link: https://revistas.ufpr.br/rcc/article/view/98008/76058
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