Bônus atrelado a metas piora a qualidade do lucro? No setor elétrico, o efeito foi o contrário

Publicado em 30/06/2026 13:30 · por Helena Michelli Ferreira Romanin - Comunicação, Karin Oliveira - Comunicação

Resumo do artigo dos autores Alessandro Princival e Flávio Ribeiro

RESUMO: Um estudo publicado na RC&C Revista de Contabilidade e Controladoria identificou que, nas empresas de energia elétrica listadas na B3, maiores níveis de remuneração variável dos executivos estão associados a menor suavização de resultados. Desenvolvida por pesquisadores da Universidade Estadual do Centro-Oeste, a pesquisa analisou dados de 34 companhias entre 2012 e 2020. Os achados contribuem para o debate sobre governança corporativa, qualidade da informação contábil e transparência no mercado de capitais.

Artigo: bônus atrelado a metas piora a qualidade do lucro? No setor elétrico, o efeito foi o contrário

"Quando o bônus do executivo está preso a metas de resultado, a intuição diz que ele vai mexer nos números para garantir a premiação. Boa parte da literatura contábil reforça esse receio. Um estudo publicado na RC&C Revista de Contabilidade e Controladoria encontrou o oposto nas empresas de energia elétrica listadas na B3: quanto maior a remuneração variável dos executivos, menor a prática de suavização de resultados.

Para quem atua em contabilidade, auditoria ou análise de investimentos, o achado tem efeito direto. Ele sugere que a maneira como uma companhia paga seus diretores pode servir de pista sobre a qualidade dos lucros que ela divulga. Em um setor que vive de tarifas reguladas, contratos longos e forte fiscalização, ler esse sinal ajuda investidores, reguladores e contadores a separar resultado consistente de resultado maquiado.

O trabalho é de Alessandro Princival e Flávio Ribeiro, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO). Apoiado na Teoria da Agência, o estudo examina como os incentivos financeiros influenciam as escolhas contábeis dos gestores. A pergunta central é direta: a remuneração variável amplia ou reduz a suavização de resultados nas empresas brasileiras do setor elétrico?

A suavização de resultados é uma forma de gerenciamento contábil. Em vez de deixar o lucro oscilar conforme o desempenho real, o gestor usa a margem de escolha das normas para manter os números mais estáveis de um ano para o outro. O propósito costuma ser passar imagem de baixo risco ao mercado e, em certos casos, proteger o próprio bônus de quedas bruscas. Quanto mais artificial essa estabilidade, pior a qualidade da informação.

Para medir o fenômeno, os autores analisaram 34 companhias abertas de energia elétrica entre 2012 e 2020. A identificação das empresas suavizadoras seguiu o modelo de Eckel (1981), que compara a oscilação do lucro com a oscilação das vendas: quando o lucro varia bem menos que as vendas, há indício de suavização. Os dados vieram das demonstrações financeiras na B3 e dos formulários de referência na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), de onde foram retirados os valores de remuneração variável da diretoria. A relação entre as variáveis foi testada por regressão com dados em painel.

Os números descritivos já chamavam atenção. Em quase todos os anos do período, o índice médio ficou abaixo de 1, o patamar que, no modelo de Eckel, aponta tendência forte de suavização no setor. No mesmo intervalo, a remuneração variável cresceu, com as maiores médias em 2019 e 2020, perto de R$ 2,3 milhões e R$ 2,1 milhões por empresa.

O resultado principal contraria a hipótese mais comum. A remuneração variável apareceu ligada a menos suavização, e não a mais. No modelo de Eckel, um coeficiente positivo empurra o índice para cima, na direção de lucros que acompanham o desempenho real. Em palavras simples, as empresas que mais pagam bônus por desempenho foram as que menos maquiaram a oscilação dos lucros. Na leitura dos autores, nesse setor a remuneração variável aproximou os interesses do gestor e os do acionista, reduzindo o estímulo a distorcer os números.

Dois achados secundários complicam a ideia fácil de que governança formal sempre significa mais transparência. Empresas listadas nos segmentos diferenciados de governança da B3, como o Novo Mercado, mostraram mais suavização, não menos. A explicação sugerida é a pressão do mercado por resultados estáveis e previsíveis, que acaba incentivando o gestor a reduzir a volatilidade aparente dos lucros. Já as companhias de maior porte suavizaram menos, em linha com a hipótese dos custos políticos: quanto maior e mais visível a empresa, maior o escrutínio da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e dos auditores, e menor o espaço para ajustes discretos. Um dado curioso é que, na amostra, foram as empresas menores as que mais remuneraram seus executivos.

O estudo não trata o achado como regra universal. O modelo explica pouco mais de 2% da variação do índice, percentual baixo, mas esperado em pesquisas sobre suavização, em que muitos fatores ficam fora da medição. Mesmo com esse limite, a mensagem prática é relevante: a estrutura de remuneração de uma empresa pode funcionar como indicador indireto da integridade dos seus resultados contábeis. Para reguladores e investidores, olhar como os diretores são pagos passa a ser parte da leitura sobre a confiabilidade dos números.

Os próprios autores apontam restrições. A análise se concentrou em um único setor e usou dados secundários. Pesquisas futuras poderiam incluir a composição da diretoria, o desempenho de mercado e indicadores ESG, além de comparar outros segmentos e mercados emergentes para aprofundar o papel da remuneração na qualidade dos resultados contábeis".

Para mais informações, contate os autores:

O artigo completo, intitulado “Suavização de Resultados e Remuneração dos Executivos: evidências em Empresas Brasileiras Listadas na B3” , foi publicado na RC&C Revista de Contabilidade e Controladoria, e pode ser acessado através do link: https://revistas.ufpr.br/rcc/article/view/100170

 

Deseja submeter seu artigo? Saiba mais, aqui!

As informações e opiniões manifestadas nesta página são de inteira responsabilidade dos autores, e não necessariamente refletem posições do CRCPR ou são endossadas pela entidade.

Reprodução permitida, desde que citada a fonte.

CADU no WhatsApp