Artigo: Laudelino Jochem discute o impacto da inteligência artificial na contabilidade como ciência (parte 2)

Publicado em 18/08/2026 13:00 · por Helena Michelli Ferreira Romanin - Comunicação, Karin Oliveira - Comunicação

Boletim de notícias da ACCPR, entidade que promove o desenvolvimento e a valorização da profissão contábil, além de fomentar a pesquisa e a atualização dos profissionais

O boletim ACCPR em Foco é um espaço reservado na área de notícias dos portais da entidade e do Conselho Regional de Contabilidade do Paraná (CRCPR) para divulgar notícias, entrevistas, artigos e eventos dessa entidade que, além de promover o desenvolvimento e a valorização da profissão contábil, fomenta a pesquisa e a atualização dos profissionais da área.

"7. A Contabilidade entre o descritivo, o explicativo e o preditivo

Historicamente, a contabilidade foi associada à função descritiva: registrar fatos ocorridos e demonstrar a posição patrimonial e o desempenho de determinado período. A inteligência artificial amplia a dimensão explicativa e preditiva da ciência contábil. Por meio de análise de dados e modelos estatísticos, torna-se possível identificar tendências, estimar riscos de inadimplência, prever fluxos de caixa, analisar margens, detectar fraudes e avaliar a probabilidade de deterioração de ativos.

Essa transformação não significa abandonar os princípios contábeis, mas ampliar o alcance da informação contábil. A ciência contábil passa a dialogar de forma mais intensa com estatística, ciência de dados, econometria, governança e tecnologia da informação. A contabilidade deixa de ser apenas memória organizada do passado e passa a contribuir mais diretamente para a compreensão do presente e para a antecipação de cenários futuros.

Contudo, previsões não são demonstrações contábeis. Modelos preditivos devem ser tratados como instrumentos de análise, e não como substitutos da mensuração normativa. O papel científico da contabilidade exige distinguir fato contábil reconhecido, estimativa contábil, informação prospectiva, indicador gerencial e opinião técnica. A confusão entre esses níveis pode comprometer a qualidade da informação e gerar falsas certezas.

 

  1. Ética, governança e limites da inteligência artificial

 

A incorporação da IA à contabilidade exige governança. A profissão contábil lida com informações sensíveis, sigilosas e economicamente relevantes. Dados contábeis podem revelar estratégia, margem, endividamento, litígios, contingências, dados pessoais, estrutura patrimonial e riscos operacionais. O uso de ferramentas de IA sem critérios de segurança, confidencialidade e controle pode gerar riscos éticos e legais.

A Norma Brasileira de Contabilidade (NBC PG) 01 do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), Código de Ética Profissional do Contador, reforça a importância da conduta ética no exercício profissional, inclusive quanto à responsabilidade, diligência e preservação da confiança pública na profissão (CFC, 2019). Em ambiente de IA, esses deveres se expandem: é necessário avaliar onde os dados são processados, quem tem acesso às informações, como o modelo foi treinado, quais limitações possui e se as respostas geradas podem ser verificadas.

O Instituto de Educação Superior de Brasília (IESBA) também tem discutido os impactos éticos da tecnologia sobre profissionais da contabilidade, incluindo inteligência artificial, automação, blockchain, computação em nuvem e governança de dados. Suas revisões relacionadas à tecnologia enfatizam a necessidade de preservar os princípios éticos fundamentais em um ambiente de rápida digitalização (IESBA, 2023).

Portanto, o uso responsável da IA em contabilidade exige pelo menos cinco cuidados: proteção de dados, rastreabilidade das decisões, validação das premissas, supervisão humana e documentação do julgamento profissional. Sem esses elementos, a IA pode aumentar a velocidade da informação, mas reduzir sua confiabilidade.

 

Laudelino Jochem, vice-presidente de Desenvolvimento Profissional do Conselho Federal de Contabilidade (CFC)

Laudelino Jochem, vice-presidente de Desenvolvimento Profissional do Conselho Federal de Contabilidade (CFC)

  1. Impactos sobre a formação do contador e a pesquisa contábil

 

A formação do contador precisará ser reformulada. O profissional do futuro não poderá limitar-se ao domínio de lançamentos, obrigações fiscais e demonstrações padronizadas. Será necessário compreender tecnologia, dados, controles automatizados, governança algorítmica, segurança da informação, visualização de dados, estatística aplicada e interpretação de modelos.

Isso não significa transformar todo contador em programador. Significa formar profissionais capazes de dialogar com tecnologia sem perder a essência contábil. A vantagem competitiva do contador estará na combinação entre conhecimento normativo, visão econômica, julgamento profissional, domínio de dados e capacidade de comunicação.

A pesquisa contábil também tende a mudar. Bases de dados mais amplas, documentos digitais, modelos de linguagem, análise automatizada de notas explicativas e cruzamento de informações públicas e privadas ampliarão as possibilidades de investigação científica. A contabilidade poderá desenvolver pesquisas mais robustas sobre comportamento econômico, qualidade da informação, risco, fraude, sustentabilidade, governança e valor das entidades.

Ao mesmo tempo, a pesquisa contábil precisará enfrentar novos problemas: vieses algorítmicos, falta de transparência dos modelos, reprodutibilidade dos resultados, dependência de fornecedores tecnológicos e validade das inferências produzidas por IA. A ciência contábil, portanto, não apenas utilizará a IA, também deverá estudá-la criticamente.

 

  1. O papel do contador na era da inteligência artificial

 

A inteligência artificial tende a reduzir o valor econômico de tarefas repetitivas e aumentar o valor de competências interpretativas. Classificar documentos, importar notas fiscais, conciliar contas e gerar relatórios padronizados serão atividades cada vez mais automatizadas. Entretanto, interpretar a substância econômica, avaliar riscos, sustentar premissas, comunicar incertezas e responder tecnicamente pela informação continuarão sendo funções humanas.

O contador da era da IA deve atuar como curador da informação contábil. Isso significa selecionar dados relevantes, validar fontes, compreender limitações dos sistemas, supervisionar automações, revisar resultados e transformar informações dispersas em conhecimento útil para decisão. A curadoria da informação será uma das novas expressões da ciência contábil aplicada.

Também cresce o papel consultivo. Com a automação das rotinas, o profissional pode dedicar mais tempo à análise de desempenho, planejamento financeiro, estruturação de controles internos, gestão de riscos, compliance, governança, valuation, perícia, auditoria e apoio estratégico à administração. Nesse contexto, a IA não substitui a ciência contábil, pois ela aumenta sua capacidade de aplicação, desde que usada com critério.

 

  1. Conclusão

     

A inteligência artificial produz impactos profundos na contabilidade como ciência. Ela modifica métodos, amplia bases de dados, automatiza procedimentos, apoia julgamentos, expande possibilidades analíticas e desafia práticas tradicionais. Entretanto, não altera a essência da contabilidade: estudar, mensurar, interpretar e comunicar os fenômenos patrimoniais das entidades de forma útil, confiável e ética.

A principal consequência da IA é deslocar a contabilidade de uma prática centrada na execução para uma ciência cada vez mais centrada na interpretação. Rotinas serão automatizadas; julgamentos serão mais relevantes. Dados serão abundantes; evidência qualificada será indispensável. Modelos serão sofisticados; responsabilidade profissional continuará humana.

A ciência contábil será fortalecida se souber integrar inteligência artificial sem renunciar a seus fundamentos. Isso exige formação técnica avançada, domínio normativo, governança de dados, ética profissional, pensamento crítico e capacidade de explicar os critérios utilizados. A IA pode acelerar cálculos, identificar padrões e sugerir classificações, mas somente o profissional da contabilidade, com base em conhecimento científico e responsabilidade ética, pode transformar dados em informação contábil confiável.

Conclui-se, portanto, que o impacto da inteligência artificial na contabilidade como ciência não é de substituição, mas de evolução. A contabilidade continuará necessária porque a sociedade continuará precisando de informação econômica confiável. O que muda é o perfil do profissional, a profundidade das análises e a exigência de que a ciência contábil dialogue, de forma crítica e responsável, com as tecnologias que passam a mediar a produção da informação".

 

Confira aqui a parte um do artigo "O impacto da inteligência artificial na contabilidade como ciência", de Laudelino Jochem.

Artigo pelo acadêmico Laudelino Jochem

Cadeira 28 da Academia de Ciências Contábeis do Paraná

 As informações e opiniões manifestadas neste artigo são de inteira responsabilidade dos autores, e não necessariamente são endossadas ou refletem posições do CRCPR ou da ACCPR. 

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