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Parte 1 - O impacto da inteligência artificial na contabilidade como ciência
"1. Introdução
A contabilidade é frequentemente percebida pelo público leigo como uma técnica de escrituração, apuração tributária e cumprimento de obrigações acessórias. Essa visão, embora reflita parte de sua aplicação prática, é insuficiente para compreender sua natureza científica. A contabilidade é uma ciência social aplicada voltada ao estudo, mensuração, evidenciação e interpretação dos fenômenos que afetam o patrimônio das entidades. Seu objeto não é apenas o lançamento contábil, mas a realidade econômico-patrimonial que se manifesta em bens, direitos, obrigações, desempenho, riscos, fluxos de caixa e capacidade de geração de valor.
A inteligência artificial (IA), por sua vez, passou a interferir diretamente nesse campo de conhecimento. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) atualizou, em 2024, seus princípios sobre a IA, reconhecendo a relevância da tecnologia para inovação, governança e gestão de riscos. A própria noção contemporânea de sistema de IA envolve sistemas capazes de gerar resultados, recomendações, previsões ou decisões com algum grau de autonomia a partir de objetivos definidos por seres humanos (OCDE, 2024).
No ambiente contábil, a IA já é aplicada em classificação automática de documentos, conciliações, leitura de notas fiscais, análise de contratos, detecção de anomalias, projeções financeiras, auditoria contínua, avaliação de riscos e produção de relatórios gerenciais. O impacto, portanto, não está restrito à substituição de tarefas repetitivas. Ele atinge a forma como se produz conhecimento contábil, como se obtém evidência, como se interpreta a realidade econômica e como se sustenta tecnicamente uma conclusão.
Este artigo tem por objetivo analisar o impacto da inteligência artificial na contabilidade como ciência, destacando seus efeitos sobre o objeto, o método, a evidência, o julgamento profissional, a ética e a formação do contador. A tese central é que a IA não enfraquece a contabilidade como ciência, mas obriga a ciência contábil a reafirmar seus fundamentos e a desenvolver novas competências para operar em ambientes digitais complexos.
A contabilidade como ciência social aplicada
A contabilidade, enquanto ciência, não se limita ao cumprimento de normas ou à elaboração mecânica de demonstrações financeiras. Ela se ocupa da representação da realidade patrimonial das entidades, utilizando métodos próprios de reconhecimento, mensuração, registro, evidenciação e análise. Sua finalidade é produzir informação útil, confiável e comparável para usuários internos e externos.
A Norma Brasileira de Contabilidade - Técnicas Gerais (NBC TG) Estrutura Conceitual estabelece que o objetivo do relatório financeiro para fins gerais é fornecer informações financeiras úteis a investidores, credores e demais usuários para tomada de decisão econômica. A mesma estrutura enfatiza características qualitativas como relevância e representação fidedigna, além de comparabilidade, verificabilidade, tempestividade e compreensibilidade (CFC, 2019). Esses conceitos demonstram que a contabilidade se fundamenta em critérios científicos de utilidade, consistência, evidência e racionalidade informacional.
Laudelino Jochem, vice-presidente de Desenvolvimento Profissional do Conselho Federal de Contabilidade (CFC)
Dessa forma, a contabilidade não é apenas um sistema de registros, mas um sistema de conhecimento aplicado à realidade econômica. O contador, nesse contexto, não é apenas operador de sistemas, mas agente técnico responsável por interpretar eventos, avaliar a substância econômica, selecionar critérios de mensuração, exercer julgamento profissional e comunicar adequadamente os efeitos patrimoniais das operações.
A inteligência artificial como transformação metodológica
A principal mudança trazida pela IA à contabilidade está no método de trabalho. Tradicionalmente, o processo contábil dependeu da captura de documentos, classificação manual, escrituração, conciliação, revisão e elaboração de relatórios. Com sistemas baseados em IA, parte significativa desse fluxo passa a ser automatizada, permitindo maior velocidade, ampliação da base de dados analisada e identificação de padrões que não seriam facilmente percebidos por métodos convencionais.
A automação contábil tradicional trabalha com regras fixas: se determinado documento possui determinada característica, aplica-se certo lançamento ou tratamento. A IA, por outro lado, pode operar com aprendizado estatístico, reconhecimento de padrões e inferência probabilística. Isso significa que o sistema não apenas executa uma regra previamente cadastrada, mas pode sugerir classificações, identificar anomalias, estimar riscos e apoiar decisões com base em dados históricos e padrões observados.
Essa alteração metodológica aproxima a contabilidade de uma ciência de dados econômico-patrimonial. O registro contábil deixa de ser apenas ato posterior ao evento e passa a integrar uma cadeia de dados, modelos, validações e evidências. A contabilidade tende a se tornar mais contínua, preditiva e analítica, sem perder sua finalidade essencial: representar adequadamente os fenômenos econômicos que afetam a entidade.
Impactos sobre o objeto da ciência contábil
O objeto da contabilidade é o patrimônio e suas variações. A IA não altera esse objeto, mas amplia a complexidade dos fenômenos patrimoniais a serem analisados. Empresas cada vez mais dependem de ativos intangíveis, dados, algoritmos, plataformas digitais, contratos eletrônicos, fluxos automatizados e modelos de negócio baseados em informação. Muitos desses elementos desafiam categorias contábeis tradicionais.
Um algoritmo pode não ser reconhecido como ativo em determinadas circunstâncias, mas pode ser elemento central da capacidade de geração de benefícios econômicos de uma entidade. Dados podem não atender, isoladamente, aos critérios de reconhecimento contábil como ativo, mas podem influenciar valor, risco, competitividade e continuidade operacional. Sistemas de IA podem afetar receitas, custos, produtividade, riscos trabalhistas, responsabilidade civil, governança, controles internos e qualidade da informação contábil.
Assim, a ciência contábil passa a ser chamada a explicar fenômenos patrimoniais que nem sempre se manifestam de forma simples em documentos fiscais ou contratos tradicionais. A inteligência artificial amplia a distância entre o evento econômico e sua representação contábil, exigindo maior capacidade interpretativa e maior integração entre contabilidade, tecnologia, direito, economia e governança corporativa.
Impactos sobre a evidência contábil
A contabilidade depende de evidência. O reconhecimento de ativos, passivos, receitas, despesas, perdas, provisões e estimativas exige suporte documental, econômico e técnico. A IA amplia a quantidade de evidências disponíveis, mas também cria novos riscos. Sistemas automatizados podem processar milhões de registros, identificar inconsistências, comparar documentos e detectar padrões atípicos; por outro lado, podem operar com dados incompletos, vieses históricos, erros de treinamento ou modelos de difícil explicação.
A evidência contábil produzida por IA não pode ser aceita de forma acrítica. Ela deve ser avaliada quanto à origem dos dados, consistência dos critérios, rastreabilidade, governança do modelo, possibilidade de auditoria e aderência às normas contábeis. O resultado de um algoritmo pode ser útil, mas não substitui a responsabilidade do profissional que assina, revisa ou utiliza a informação.
Esse ponto é especialmente relevante para auditoria, perícia, valuation, controles internos e relatórios financeiros. O International Auditing and Assurance Standards Board (IAASB) reconheceu que o avanço tecnológico apresenta oportunidades e desafios para a profissão de auditoria e asseguração, orientando sua atuação normativa para acompanhar a interseção entre tecnologia, auditoria e padrões profissionais (IAASB, 2024). Em termos contábeis, isso reforça a necessidade de que a IA seja tratada como ferramenta de apoio à evidência, e não como fonte absoluta de verdade.
Julgamento profissional e responsabilidade humana
Um dos equívocos mais comuns no debate sobre inteligência artificial é imaginar que a tecnologia eliminará o julgamento profissional. Na contabilidade, ocorre o oposto: quanto maior a automação, maior tende a ser a relevância do julgamento humano nos pontos que não podem ser resolvidos por mera repetição de padrões.
A aplicação das normas contábeis frequentemente exige avaliação de substância econômica, estimativas, premissas, probabilidade, materialidade, recuperabilidade, valor justo, reconhecimento de receitas, classificação de instrumentos financeiros, provisões e divulgações em notas explicativas. Esses temas não dependem apenas de cálculo, eles dependem de interpretação, contexto, evidência e responsabilidade.
A inteligência artificial pode auxiliar na coleta de dados, na elaboração de cenários, na comparação de premissas e na identificação de inconsistências. Todavia, a decisão técnica final deve permanecer sob responsabilidade do contador, auditor, perito ou especialista competente. A IA pode sugerir, mas não responde profissionalmente perante usuários, reguladores, clientes, investidores ou sociedade.
Nesse sentido, a IA fortalece a necessidade de contadores com maior capacidade analítica. O profissional deixa de ser valorizado apenas pela execução de tarefas operacionais e passa a ser demandado pela capacidade de revisar modelos, questionar premissas, interpretar resultados, identificar riscos e comunicar conclusões com clareza e responsabilidade".
Parte 2 do artigo "O impacto da inteligência artificial na contabilidade como ciência", de Laudelino Jochem, a ser divulgada em breve.
Artigo pelo acadêmico Laudelino Jochem
Cadeira 28 da Academia de Ciências Contábeis do Paraná
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