RESUMO: O Fórum do Auditor 2026 reunirá especialistas para debater a relação entre governança corporativa e auditoria independente, destacando o papel estratégico dos auditores no fortalecimento dos mecanismos de controle, transparência e geração de valor nas organizações. Promovido pela Comissão CRCPR Auditor, o evento abordará temas como gestão de riscos, qualidade das informações, independência profissional e efetividade dos sistemas de governança.
O Fórum do Auditor 2026 já tem data marcada e acontecerá entre os dias 28 e 29 de setembro. Contando com dois painéis, o primeiro dia do evento será dedicado à governança corporativa e ao papel estratégico da auditoria independente nas organizações, permitindo aos participantes entender como o auditor pode contribuir ativamente para o fortalecimento dos mecanismos de controle, supervisão e geração de valor nas empresas. Os encontros serão transmitidos na TV CRCPR, iniciando-se às 9h em ambos os dias.
Os participantes poderão pontuar no Programa de Educação Profissional Continuada do Conselho Federal de Contabilidade (PEPC-CFC), garantindo até 6 pontos para os participantes. É necessário inscrever-se para cada dia do evento separadamente.
Promovido pela Comissão CRCPR Auditoria Contábil, o Fórum do Auditor 2026 promoverá debates técnicos e estratégicos sobre temas atuais e relevantes para a área. Serão realizadas, no dia 28 de setembro, as palestras "Governança Corporativa e Auditoria Independente: o compromisso com a informação adequada" e "A Transformação da Governança Corporativa e sua Relação com o Auditor". Os painéis serão ministrados, respectivamente, pelos especialistas Guy Almeida Andrade, membro dos Comitês de Nomeações do International Auditing and Assurance Standards Board (IAASB) e do International Ethics Standards Board for Accountants (IESBA), e Marcos Leandro Pereira, coordenador geral do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC),
Andrade é contador; administrador de empresas; ex-presidente do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (IBRACON); e presidente de firma de auditoria. Já Pereira é advogado; especialista em Direito Empresarial, Societário e Governança Corporativa; e fundador de sociedade de advogados e de hub estratégico dedicado à governança e sucessão.
Em entrevista ao CRCPR Online, os palestrantes discutiram brevemente os temas que serão abordados no primeiro dia do evento, apresentando uma análise sobre a importância do auditor no fortalecimento de empresas e a importância de iniciativas como o Fórum do Auditor 2026.
"O Fórum do Auditor propicia o debate crítico e desafia crenças, duas ações fundamentais para o avanço e crescimento profissional", afirmou o palestrante Guy Almeida Andrade
Confira a seguir entrevista com o palestrante Guy Almeida Andrade:
CRCPR Online: Como o auditor independente pode contribuir não apenas para a identificação de problemas, mas também para a melhoria da governança?
Guy Almeida Andrade (GAA): A auditoria independente é ferramenta fundamental para o processo de prestação responsável de contas. O auditor empresta credibilidade às demonstrações financeiras que são apresentadas ao mercado. Em seu trabalho, além de conhecer e avaliar o ambiente de negócios, a estrutura de controles, as alçadas de decisão e as relações internas, o auditor também se relaciona diretamente com os responsáveis pela governança — Conselho de Administração e Comitê de Auditoria — e a eles tem a obrigação de destacar os principais problemas detectados, entre eles as falhas de governança.
CRCPR Online: Por que a troca de experiências e conhecimentos sobre governança e auditoria é fundamental para a evolução das organizações? Como o Fórum do Auditor contribui para a atualização desses profissionais?
GAA: A troca de experiências é sempre construtiva. Por meio dela enxergamos aspectos que não havíamos percebido e conhecemos pontos de vista diferentes dos nossos, que nos obrigam a revisitar nossas convicções. O debate sobre governança e auditoria independente auxilia os dois lados a compreenderem os desafios da outra parte. Além disso, esse debate ajuda a colocar a auditoria independente na pauta do Conselho e do comitê de auditoria. O Fórum do Auditor propicia o debate crítico e desafia crenças, duas ações fundamentais para o avanço e crescimento profissional.
Confira a seguir entrevista com o palestrante Marcos Leandro Pereira:
CRCPR Online: O que mudou no cenário empresarial para tornar a governança corporativa uma pauta ainda mais estratégica para as organizações? O que passou a ser mais importante quando falamos em governança corporativa?
Marcos Leandro Pereira (MLP): A principal mudança é o aumento extraordinário da complexidade do ambiente no qual as empresas precisam tomar decisões. Durante muito tempo, a governança corporativa foi associada, predominantemente, à existência de estruturas formais, tais como os Conselhos de Administração, comitês, auditorias, políticas, controles e definição de responsabilidades. Tudo isso continua sendo necessário, mas já não é suficiente. As empresas passaram a enfrentar, simultaneamente, riscos tecnológicos, cibernéticos, regulatórios, reputacionais, geopolíticos, climáticos, além de transformações provocadas pela inteligência artificial (IA) e por velocidade de mudança cada vez maior. Nesse ambiente, a governança deixa de ser apenas um mecanismo de supervisão e passa a ter uma função muito mais estratégica, que é a de qualificar o sistema pelo qual a organização decide, supervisiona riscos e exerce poder. E essa mudança é importante quando analisamos os grandes desvios e escândalos corporativos, visto que muitos deles ocorreram em empresas que possuíam conselhos, auditorias, controles internos, códigos de conduta e estruturas formais “aparentemente” sofisticadas. Portanto, a pergunta mais relevante deixou de ser se a empresa possui mecanismos de governança e passou a ser se eles realmente funcionam quando são necessários. Essa distinção é fundamental, já que a governança não pode ser medida somente pela existência de políticas ou órgãos de controle. É preciso avaliar a qualidade das informações que chegam ao Conselho, a independência daqueles que fiscalizam, a efetividade dos controles, a liberdade para questionar a administração, a forma como os conflitos de interesse são tratados e, principalmente, a capacidade da organização de identificar os sinais de alerta antes que se transformem em crises. E nesse ponto, revela-se a importância da cultura e do comportamento. Um sistema de controles tecnicamente sofisticado pode ser neutralizado quando existe conluio, concentração excessiva de poder ou quando a própria administração consegue contornar os controles existentes. Os dados sobre fraudes corporativas continuam demonstrando a relevância desse problema. O Report to the Nations 2026 da Association of Certified Fraud Examiners analisou 2.402 casos em 143 países. O estudo mostrou que um caso típico permanece cerca de 12 meses sem ser detectado e que 43% das fraudes foram descobertas por meio de denúncias. Quanto mais cedo ocorre a identificação, menores tendem ser as perdas. Por isso, quando falamos em governança atualmente, os elementos mais importantes são a qualidade do julgamento, a transparência real, a integridade, a independência, a gestão de riscos e a capacidade de questionamento. A 6ª edição do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC* também reforçou essa perspectiva principiológica, estruturando a boa governança em torno dos princípios da integridade, da transparência, da equidade, da responsabilização e da sustentabilidade. A governança evoluiu de uma preocupação predominantemente estrutural para algo mais profundo, representado pela qualidade do sistema de decisões, dos controles e dos contrapesos que protege a organização justamente quando interesses, pressões e incertezas tornam as decisões mais difíceis.
"Atualmente, quando falamos em governança os elementos mais importantes são a qualidade do julgamento, a transparência real, a integridade, a independência, a gestão de riscos e a capacidade de questionamento", explicou o palestrante Marcos Leandro Pereira
CRCPR Online: Qual o principal papel que o auditor pode desempenhar no fortalecimento da governança das empresas?
MLP: É importante distinguirmos a Auditoria Interna da Auditoria Independente, pois possuem responsabilidades diferentes, embora ambas sejam fundamentais para uma eficaz governança. Um dos maiores valores que o auditor pode oferecer a uma organização é proporcionar ao sistema de governança uma visão independente e tecnicamente qualificada sobre aquilo que a própria organização pode não enxergar adequadamente. Na Auditoria Interna, essa função é particularmente ampla. Os atuais Global Internal Audit Standards do Institute of Internal Auditors definem a Auditoria Interna como uma atividade independente e objetiva destinada a agregar valor e avaliar a efetividade dos processos de governança, gestão de riscos e controles. Os novos padrões internacionais estão vigentes desde janeiro de 2025 e reforçam, inclusive, a necessidade de posicionamento independente e supervisão pelo Conselho. Isso significa que uma Auditoria Interna madura não deveria limitar sua atuação à verificação de procedimentos ou à identificação de desconformidades. Ela deve auxiliar o Conselho e a administração a responder questões muito mais relevantes, tais como: onde estão as nossas principais vulnerabilidades? Os nossos controles realmente funcionam? Existe concentração de poder em determinadas áreas? Existem riscos sendo subestimados? Também precisará responder se as informações que chegam à alta administração representam adequadamente a realidade ou se existem sinais de que determinados controles estão sendo contornados. Aqui destaca-se uma expressão particularmente importante para quem trabalha com governança, que é o “ceticismo profissional”. O auditor agrega maior valor não quando parte do pressuposto de que existe uma fraude, mas quando também não presume que tudo aquilo que lhe foi apresentado está necessariamente correto. Ele verifica evidências, confronta informações, identifica inconsistências e procura compreender aquilo que não está suficientemente explicado. Já nos desvios corporativos mais sofisticados, esse papel torna-se ainda mais relevante porque, frequentemente, o problema não está na inexistência de controles, mas no management override, que é a capacidade de alguém com autoridade suficiente neutralizar ou contornar controles que formalmente existem. A Auditoria Independente, por outro lado, possui uma responsabilidade diferente. O seu objetivo primordial é obter a segurança razoável de que as demonstrações financeiras estejam livres de distorções relevantes, inclusive aquelas decorrentes de fraude. Mas também não é correto afirmar que a Auditoria Independente existe para garantir que não haja fraude ou que tenha a responsabilidade exclusiva por descobri-la. Essa distinção é importante, porque a responsabilidade primária pela prevenção e detecção de fraudes permanece com a administração e com aqueles responsáveis pela governança da organização. O auditor precisa ter independência não apenas formal, mas intelectual, pois um auditoria que se torna excessivamente próxima da administração, que perde capacidade de confronto ou que transforma a relação com o auditado em mera validação de procedimentos, perde justamente aquilo que constitui a sua principal contribuição à governança. Portanto, o papel do auditor pode ser resumido em três funções: dar segurança, provocar questionamentos e tornar visíveis os riscos que a organização talvez ainda não esteja enxergando. Os auditores não substituem o Conselho, a gestão ou os controles internos, mas uma auditoria verdadeiramente independente e tecnicamente qualificada funciona como um dos mais importantes mecanismos de contrapoder dentro de uma organização. E, em governança, os mecanismos de contrapoder são essenciais, porque os grandes desvios corporativos raramente começam pela ausência absoluta de controles, mas quando alguém passa a acreditar que possui poder suficiente para não ser questionado por eles.
*IBGC: Instituto Brasileiro de Governança Corporativa
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