Pesquisas feitas em diversos países comprovam o que já sabemos: o Brasil é um dos países onde existem mais empreendedores no mundo, o que é positivo se não houvesse tanta mortalidade de empresas. Segundo o Sebrae, 49,4% sobrevivem somente até dois anos. Nos países desenvolvidos, a taxa de mortalidade chega no máximo a 20% nos dois primeiros anos. Esses estudos mostram também que as principais causas da mortalidade das empresas brasileiras são fatores gerenciais (descontrole do fluxo de caixa, alto endividamento e localização inadequada), falta de capacitação do empreendedor (a maioria abriu um negócio próprio sem experiência anterior direta no ramo ou no mundo dos negócios) e a grande maioria são micro e pequenas empresas.
Os contadores não são inteiramente culpados por esse quadro, mas com certeza têm sua parcela de culpa, pois a qualidade dos serviços prestados ao empresário poderia evitar tantas fatalidades. Muitos profissionais esqueceram que a contabilidade não é simplesmente debitar e creditar, emitir guias e preencher declarações. A contabilidade é mais do que isso. É uma ciência e seu propósito é controlar e fazer a riqueza perpetuar.
Alguns empresários criaram o estigma de que o contador é um “mal necessário”, ao invés de ver nele um “amigo” que está ali para ajudar no crescimento de seu empreendimento; e o governo, por sua vez, “escravizou” o contador com suas diversas declarações e guias para preencher.
É hora de mudar este paradigma, aplicar de fato o conhecimento adquirido nos bancos acadêmicos e no mundo empresarial e dar um assessoramento de qualidade aos empresários.
Como fazer isto?
Ter a sensibilidade para orientar o empresário desde o princípio, na execução do plano de negócios para juntos discutirem a viabilidade do empreendimento. É preciso alertar sobre os riscos que o empresário deverá correr. Discutir até mesmo como captou ou como pretende captar o capital inicial para seu empreendimento, como este recurso será aplicado para que não imobilize quase todo o capital, impossibilitando-o de movimentar a empresa. Estudar o melhor enquadramento tributário e tornar o empresário ciente da carga tributária que está se tornando cada vez mais exorbitante, auxiliando-o na gestão financeira, demonstrando a extrema importância do planejamento, orçamento, controle de prazos de recebimentos e pagamentos, fluxo de caixa, cálculo do preço de venda, ponto de equilíbrio. Deixar bem claro que o retorno não vem a curto prazo. Importa também discutir a importância de se reinvestir parte dos lucros no empreendimento, manter o contador informado sobre as ações que está pensando em tomar.
O contador precisa ter uma infinidade de serviços e conselhos que podem ser oferecidos, pois muitos candidatos a empreendedores tentam se aventurar no mundo empresarial sem ter o mínimo de conhecimento sobre gestão.
Há profissionais que têm o costume de festejar quando encerram seus balanços como se tivessem terminado todo o serviço. O fato deve ser festejado mesmo, mas o serviço não terminou ainda. É aí que começa. É hora de chamar o empresário para avaliar se o resultado foi o esperado, de comparar com outros períodos, até mesmo tentar comparar com outras empresas que tenham o mesmo ramo e porte, e planejar as ações que serão tomadas no próximo período. A maioria não discute o que aconteceu durante o ano na empresa com os empresários.
Se essa postura passar a fazer parte do cotidiano de cada contador, a visão a seu respeito mudará e com certeza para melhor. Conseqüentemente não haverá tanto fechamento de empresas; com isso, teremos não só um país com muitos empreendedores, mas um país onde os negócios sobrevivem mais, que é de fato muito mais importante.
É preciso estar atento. Um negócio envolve muitas variáveis. Não somente o sonho das pessoas, o dinheiro poupado durante uma vida inteira, empregados que têm suas famílias e dependem do trabalho. É fundamental que essas empresas sobrevivam e cresçam cada vez mais.
É chegada a hora, portanto, de mudar este cenário. Que os contadores se tornem o que realmente devem ser: “assessores da riqueza” nas empresas. Só dessa forma estarão contribuindo definitivamente para que o país cresça e conquistarão de forma merecida maior destaque na sociedade.
SANDRO RIOS MARQUES
Contador, Bacharel em Ciências Contábeis (FAE Business
School)
e-mail: smarques@pr.sebrae.com.br