Opinião do Presidente
Curitiba, 01 de Março de 2010.



Retrocesso


Um dos grandes temores do empresariado e de investidores era que o Lula candidato, em 2002, se vencesse as eleições, promovesse retrocessos que poderiam anular o trabalho de anos de redesenho da figura de um Estado que durante o regime militar havia confundido o seu papel com o de uma empresa. Eleito presidente, porém, Lula surpreendeu. Pôs entre parênteses princípios que representavam ameaças. Honrou contratos. Manteve as políticas de abertura econômica. Só não resistiu ao pecado de agigantar a máquina estatal, multiplicando o contingente de servidores, cargos de confiança, número de ministérios, secretarias e órgãos. O que rendeu força e poder ao seu partido.

Só recentemente manifestou a veia estatizante ao decidir criar uma empresa diferente da Petrobrás para cuidar das atividades de extração de óleo da camada pré-sal. E agora, no finzinho do mandato, vem com três propostas estatistas de uma vez. Quer reativar a Telebrás, com a alegação de ampliar a oferta de internet banda larga, concorrer com as operadoras privadas para levar o acesso a 68% dos domicílios até 2014; hoje, somente 19% estão conectados; e ainda investir na produção de fertilizantes e em uma “megaempresa” na área de energia, segundo o próprio presidente, com “capacidade de assumir empréstimos lá fora, de fazer obras lá fora e aqui dentro”, uma multinacional, portanto.

A questão é que o governo já está ampla e profundamente envolvido com todos esses setores, até o de fertilizantes que tinha sido privatizado mas está retornando ao seu controle novamente. Só vai aumentar o domínio – orientação que pode ser interpretada como saudade das raízes ideológicas, indicação de como seria um governo Dilma Rousseff ou simples influência do vizinho Hugo Chaves, que, se pudesse, privatizaria todas as empresas em nome da utopia bolivariana.

O modelo de Estado que confunde a sua essência com a de uma empresa é um retrocesso. O resultado, pelo que podemos ver na Venezuela, é a tendência ao fracasso, pelo desestímulo e enfraquecimento das forças econômicas, culminando com a escassez de produtos e serviços essenciais; para não falar dos conflitos políticos.

Nada impede que o Estado mantenha presença em áreas estratégicas mas, no geral, a sua melhor contribuição é apenas na criação de clima legal, funcional, de ordem e desenvolvimento econômico e social; o que pode levar a cabo compondo parcerias com os demais setores da sociedade.

Em vez de ocupar seu tempo gerenciando empresas, o que nós brasileiros queremos é que o nosso governo cuide das reformas que precisam ser feitas: a política, a administrativa, a tributária, a sindical e quantas mais; promova avanços institucionais, nos mecanismos de transparência da gestão pública, na oferta de mais e melhores serviços; crie, enfim, um ambiente favorável ao desenvolvimento.

Que os candidatos saibam disso.

Contador Paulo César Caetano de Souza
Presidente